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Quem é você quando tiram o seu cargo?

O autoconhecimento das suas habilidades e características comportamentais será uma das premissas para navegar nesse oceano de incertezas. E, mais do que nunca, a sua singularidade será de suma importância.

Olá! Meu nome é Clara Andréia Laface Rocha Ramos, sou casada, não tenho filhos e fui adotada quando tinha 36 horas de vida. Minha mãe começou a me ensinar a ler e escrever quando eu tinha três anos e meio. Gosto de ouvir rock, jazz e MPB, sou uma verdadeira rata de livros, adoro cozinhar e sou corinthiana roxa.

Mas por que comecei este artigo assim?

Isso partiu de uma provocação ocorrida no primeiro dia de aula de uma especialização. Pediram que compartilhássemos duas curiosidades sobre nós mesmos. Uma forma de nos fazer pensar para além da nossa profissão.

Não foi a primeira vez que me deparei com esse tipo de situação. Primeiro, porque, ao longo da minha trajetória, foi difícil desatrelar minha identidade do âmbito exclusivamente profissional. Segundo, porque 99% dos clientes que atendi falavam sobre suas carreiras e capacidades quando eu fazia a pergunta: “quem é você?”.

Vivemos uma crise de identidade em que não sabemos ao certo onde começa o “eu pessoal” e termina o “eu profissional”. E isso, com o tempo, pode deixar um gosto amargo.

A identidade profissional como narrativa contínua

Vamos entender um pouco sobre o que é identidade. Diversos teóricos, ao longo do tempo, trouxeram suas terminologias e impressões para explicar o significado dessa palavra. Vou simplificar e trazer a definição do dicionário Oxford: ” Identidade é o conjunto de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e por meio das quais é possível individualizá-la.”

Valores inegociáveis, estilo de vestimenta e comunicação, características físicas, idade, gênero, raça, estilo de vida, gostos pessoais, histórias, habilidades, entre outros, são partes que compõem a nossa unicidade. São essas características que ajudam a descrever quem somos e qual é o nosso papel na sociedade.

Por que, então, nos reduzimos simplesmente a: “Oi, sou fulana, advogada tributarista, atuei junto às empresas X, Y e Z, meu escritório está localizado no Itaim Bibi e minha trajetória profissional começou…”? Quero me ater a dois pontos: a correlação que fazemos entre ocupação profissional e dignidade humana, e o senso de pertencimento.

“O trabalho dignifica o homem” é uma expressão muito utilizada para trazer esse senso de utilidade que a nossa profissão nos proporciona. Não são raros os casos de pessoas que tomaram atitudes extremas quando perderam seus empregos ou empresas e se viram impossibilitadas de exercer sua função. Ter uma profissão, viver sem tempo para nada e estar cansado tornaram-se sinônimos de dignidade e de única utilidade.

Fazer parte de um grupo também é outro fator que nos leva a colocar a identidade profissional acima de outras dimensões. Os encontros de networking, a capacidade financeira de frequentar determinados lugares e o orgulho de dizer que seu escritório fica no Faria Lima Financial Center também costumam ocupar um espaço maior na vida de muitas pessoas.

A sua identidade profissional faz parte da sua narrativa. Passa a ser um problema quando apenas essa identidade ganha protagonismo e deixa de lado as outras camadas que compõem a sua trajetória. E quando se perde tudo isso, não por incapacidade, mas porque o mundo já não é mais como era antes?

A crise identitária causada pela obsolescência das profissões na era da IA

“Uma coisa é certa: o seu emprego, como você conhece hoje, definitivamente não vai ser o mesmo daqui a cinco anos.” Essa foi a afirmação que Michelle Schneider, autora do livro O Profissional do Futuro, fez em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo. Ela fala das transformações que muitas profissões terão com o desenvolvimento de novas inteligências artificiais e de como habilidades comportamentais, além do letramento tecnológico, serão os nossos diferenciais em relação à máquina.

Sejamos otimistas, porém realistas: muitas profissões podem estar com os dias contados.

Não é para se desesperar e se inscrever no primeiro curso sobre IA de que tiver conhecimento — até porque já tenho visto muito trapaceiro disfarçado de especialista — para mudar de profissão. Prepare-se, sim. Tenha conhecimento sobre a tecnologia, até porque existem muitas ferramentas de IA que facilitam e otimizam a nossa rotina. Mas vamos nos ater às habilidades comportamentais. Ou seja, às partes que muitas vezes são negligenciadas na nossa identidade por nós mesmos, como mencionei anteriormente.

Pensamento criativo, resiliência, liderança, influência social e flexibilidade são algumas das competências que, segundo o WEF — Fórum Econômico Mundial —, serão valorizadas em 2030. Ou seja, características que já podem fazer parte da sua identidade, independentemente do cargo que você ocupa. Identificou não possuir alguma? Sem motivo para preocupação, pois todas podem ser aprimoradas e desenvolvidas.

O autoconhecimento das suas habilidades e características comportamentais será uma das premissas para navegar nesse oceano de incertezas. E, mais do que nunca, a sua singularidade será de suma importância.

Antes do que você faz, existe quem você é

Duas pessoas podem exercer a mesma função, ter a mesma formação e ocupar cargos semelhantes. E, ainda assim, serem completamente diferentes na forma como constroem relações, resolvem problemas e geram valor. O diferencial não está apenas no “como fazem”, mas no “como são”.

Enquanto o fazer está sujeito às mudanças do mercado, à inserção de novas tecnologias e a outras circunstâncias, o modo de ser e de pensar atravessa situações com mais consistência. Isso não significa que a identidade profissional perde relevância; ela apenas deixa de ser o ponto central da sua vida. Quando o foco está apenas no fazer, qualquer mudança pode fazer você perder o rumo.

O que você faz não pode ser a única base de quem você é. Pense nisso na próxima vez que precisar se definir.

Clara Laface escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às terças-feiras.

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