Ferrovias no Brasil: o desafio de se ter uma visão sistêmica
O debate sobre transporte ferroviário promovido no segundo dia do fórum Rio de Janeiro Export 2026, nessa terça-feira, dia 28, ataca uma miopia histórica da infraestrutura nacional: a tendência de projetar ferrovias como linhas isoladas em um mapa, e não como engrenagens de um sistema vivo. E fica evidente que a crise enfrentada por esse modal no País não é apenas de engenharia ou de falta de dormentes, mas de planejamento integrado. O Brasil de 2026 precisa compreender que o sucesso de um terminal não se mede pela chegada do trem ao porto, mas pela fluidez com que a carga sai do vagão e alcança o porão do navio. Sem essa conexão “ponta a ponta”, o mercado continuará reféns de projetos que nascem economicamente frágeis.
Nesse cenário, a importância estratégica de diversificar as cargas ferroviárias é o que garantirá a saúde financeira das concessões. Historicamente, o trilho brasileiro foi escravo do minério de ferro, mas a viabilidade dos novos projetos depende da capacidade de atrair produtos manufaturados, grãos e cargas conteinerizadas. Ao ampliar o leque de setores produtivos que utilizam a via, cria-se a massa crítica necessária para estabilizar as ferrovias existentes e atrair capital para novas expansões. O planejamento deve, portanto, preceder o traçado; a rede deve ser pensada antes da linha.
A segurança do investidor, ponto central do debate ocorrido no fórum, repousa sobre o tripé da regulação, da segurança jurídica e do retorno econômico. O novo marco regulatório ferroviário em discussão no Senado e instrumentos como o uso de recursos de outorgas para financiar obras são passos na direção correta para reduzir o risco de descontinuidade. Entretanto, a regulação precisa ser “bem feita” para responder à pergunta fundamental de quem aporta bilhões: “Eu terei a segurança desse dinheiro?”.
O recado deixado no Rio de Janeiro Export é de que o Brasil não pode mais depender exclusivamente do caminhão, sob pena de estrangular sua competitividade global. A integração logística exige que a indústria consiga chegar à ferrovia e que a ferrovia converse perfeitamente com o porto. Se o projeto não contempla o acesso rodoviário na origem e a eficiência do transbordo no destino, ele é apenas um investimento incompleto. O futuro da logística do Rio de Janeiro e do Brasil depende dessa visão sistêmica, onde o trem deixa de ser um fim em si mesmo para se tornar o meio de uma economia verdadeiramente integrada.