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João Eduardo de Villemor Amaral Ayres e Rebecca Alonso Nascimento

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Da linearidade ao rombo econômico: o que está por trás de 25,4 trilhões de euros perdidos

Se um terço do valor da economia global está sendo corroído ano após ano por ineficiências e externalidades não precificadas, ignorar esse dado passa a ser, também, um substancial risco financeiro.

O nono Global Circularity Gap Report, relatório anualmente publicado pelo centro de estudos holandês Circle Economy e principal referência global nos temas de economia circular, marca uma virada importante: pela primeira vez, a discussão sobre circularidade entra no coração da linguagem econômica, traduzida em trilhões de euros de valor jogados fora todos os anos. Desde 2018, a Circle Economy mede a taxa de circularidade global a partir de fluxos de materiais. Na edição lançada em 16 de abril de 2026, eles adicionam uma camada nova: o chamado “value gap”, uma forma de quantificar quanto valor econômico é perdido porque há muitas décadas estamos inseridos em um modelo econômico linear, que, em resumo, trabalha os conceitos de extração de matérias primas, produção e descarte de produtos e materiais. 

Com base em dados de 2021, o relatório estima esse gap em 25,4 trilhões de euros – algo maior que toda a economia dos Estados Unidos, equivalente a quase um terço do PIB mundial e próximo da ideia de que, para cada 3 euros gerados, 1 euro é simplesmente desperdiçado. Mais do que disputar a centralidade do PIB, a mensagem é outra: se olharmos só para a atividade econômica medida, sem enxergar a degradação de recursos, ativos e pessoas, estamos contando a história pela metade.

Para tornar essa ideia concreta, o estudo organiza as perdas em cinco grandes caminhos. Primeiro, as perdas de processamento: matéria-prima que se perde ao longo da produção por ineficiências, defeitos e rendimentos baixos. Depois, as perdas de energia: mais da metade da energia primária se dissipa antes de virar serviço útil, em conversões ineficientes e calor desperdiçado. 

O terceiro caminho vem da comida – cerca de um terço do que é produzido globalmente se perde ou é descartado antes de chegar ao prato de cada um de nós. O quarto, das perdas no fim de vida: produtos e ativos que vão embora muito antes de terem seu potencial esgotado, quando poderiam ser reutilizados, reparados, remanufaturados e reinseridos na economia. Por fim, a depreciação de capital fixo: edifícios, infraestrutura, máquinas e veículos que perdem valor por deterioração, obsolescência ou má utilização, num processo lento e silencioso de destruição de riqueza.

Durante o lançamento da edição 2026 do GCR, ficou claro que o problema não é um erro pontual, mas um desenho de sistema. Parte importante do gap vem da forma como desenhamos e gerimos produtos e materiais ao longo das cadeias: especificações pouco eficientes, baixa padronização, logística mal pensada, ausência de canais para retorno e reaproveitamento. Outra parcela nasce da obsolescência prematura – tecnológica, regulatória ou simplesmente induzida por estratégia de mercado –, que empurra ativos para a aposentadoria antes da hora. Soma-se a isso a deterioração física de ativos de longa vida, muitas vezes resultado de manutenção insuficiente e uso subótimo. E, acima de tudo, as perdas associadas a custos ambientais e sociais que não aparecem no preço de quaisquer produtos e/ou serviços: poluição, exaustão de recursos, impactos na saúde. Esses “custos invisíveis” respondem pela maior fatia do valor que estamos destruindo sem contabilizar.

Arnold Tukker sintetizou o quadro de forma bastante direta ao tratar o estudo como uma espécie de “revisão orçamentária global”: em termos simples, estamos jogando fora algo próximo de um terço do valor que produzimos todos os anos. Ao colocar um número nessa perda, o relatório passa a falar o idioma que governos, investidores e empresas conhecem: orçamento, risco, retorno. 

A discussão deixa de ser apenas sobre emissões, resíduos e biodiversidade e passa a ser, também, sobre ineficiência econômica em escala sistêmica. Quando se mostra que esse volume de valor se esvai entre desperdícios, subutilização de ativos e externalidades não precificadas, a pergunta deixa de ser se faz sentido mudar (da linearidade para circularidade) e passa a ser quanto estamos dispostos a continuar perdendo.

A dimensão de oportunidade aparece com força quando se olha para o fim de vida dos produtos. A leitura apresentada é que, só na captura de valor nessa etapa – reaproveitando produtos e componentes que hoje viram resíduo – haveria espaço potencial para algo na ordem de dezenas de trilhões de euros — ao ano — em novos modelos de negócio: serviços em vez de vendas pontuais, esquemas estruturados de logística reversa, reciclagem com foco em qualidade, design modular e ciclos de feedback entre uso real e desenvolvimento de produto. 

O desafio não é a falta de potencial, mas incentivos desalinhados, processos construídos para o histórico modelo linear e a necessidade de novas competências ao longo de toda a cadeia.

Na perspectiva das políticas públicas e das finanças, o relatório ressalta que fechar o “value gap” não será fruto de ajustes marginais. Linearidade está embutida em como definimos metas, criamos projetos, avaliamos investimentos, desenhamos tributos e subsídios. Por isso, a agenda proposta passa por medir melhor (para tornar visível o que hoje é perda silenciosa), redesenhar incentivos (tributos, subsídios e sinais de preço que valorizem uso eficiente de recursos e penalizem desperdício), repensar o design de produtos e serviços desde o início (e levando em conta todo o seu período de vida útil e o após) e melhorar a qualidade das decisões ao longo das cadeias, com mais dados, transparência e coordenação entre setores e países. 

Como lembrou Arno Behrens ao apresentar o quadro dos “4 Is” do Banco Mundial – instituições, incentivos, informação e investimento –, circularidade exige fundamentalmente liderança econômica e financeira, não apenas ambiental.

Para bancos, investidores e empresas, essa discussão se conecta diretamente à forma como avaliamos projetos e carteiras. Se um terço do valor da economia global está sendo corroído ano após ano por ineficiências e externalidades não precificadas, ignorar esse dado passa a ser, também, um substancial risco financeiro. 

Visto por outro ângulo, o Global Circularity Gap Report 2026 abre uma agenda que vai muito além da fotografia da circularidade global: começa a montar o mapa de onde estamos perdendo valor financeiro real, concreto e metrificável e, portanto, onde estão as oportunidades mais relevantes para construir uma economia que seja, ao mesmo tempo, mais escalável, resiliente, justa e menos desperdiçadora de recursos, mudando-se o paradigma econômico de uma histórica economia linear e com todas as suas fragilidades, para uma nova ordem circular, que, acima de tudo, poderá representar relevantes ganhos financeiros para todos os agentes envolvidos.

João Eduardo de Villemor Amaral Ayres e Rebecca Alonso Nascimento escrevem quinzenalmente para o BE News. Seus textos são publicados às quartas-feiras.

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