Ministério do Trabalho aponta que foram 4.249 óbitos em dez anos; transporte de cargas também lidera entre atividades com mais mortes
Um estudo técnico divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) aponta que os motoristas de caminhão lideraram o número de mortes por acidentes de trabalho no Brasil entre 2016 e 2025. Segundo o levantamento, foram registrados 4.249 óbitos nessa ocupação ao longo do período, o maior total entre todas as categorias analisadas.
O recorte por atividade econômica reforça o mesmo padrão. De acordo com os dados, o transporte rodoviário de carga acumulou 2.601 mortes em dez anos, também ocupando a primeira posição entre os setores com maior número de óbitos. Para o MTE, o resultado indica que, embora não concentre o maior volume de ocorrências, a atividade apresenta maior gravidade em comparação a outros segmentos.
As informações foram apresentadas em 28 de abril, data em que se celebra o Dia Mundial de Segurança e Saúde no Trabalho, e consolidam registros do Instituto Nacional do Seguro Social e do sistema eSocial. O estudo reúne, no total, 6,4 milhões de acidentes de trabalho e 27.486 mortes no país ao longo da última década.
Os dados mais recentes mostram que, em 2025, foram contabilizados 806.011 acidentes e 3.644 mortes, o maior patamar da série histórica. Segundo o ministério, o crescimento ocorre após a queda registrada em 2020, período marcado pela pandemia, e acompanha a retomada da atividade econômica e a ampliação do emprego formal.
No caso dos caminhoneiros, o volume de mortes ao longo dos anos equivale a uma média superior a um óbito por dia. O levantamento não detalha causas específicas, mas indica que a atividade reúne fatores de risco associados à exposição constante ao trânsito, longas jornadas, transporte de cargas e deslocamentos em rodovias de diferentes condições.
Enquanto o transporte rodoviário de carga lidera em número de mortes, outros setores concentram maior volume de acidentes. O estudo aponta que a área de saúde, especialmente atividades hospitalares e de pronto atendimento, registrou o maior número absoluto de ocorrências no período, com cerca de 633 mil casos. Entre as ocupações, os técnicos de enfermagem aparecem na primeira posição em número de acidentes.
O levantamento também traz recortes regionais. Estados como Mato Grosso, Tocantins e Maranhão apresentam taxas mais elevadas de letalidade. De acordo com o MTE, o Mato Grosso se destaca por combinar alta incidência e elevada gravidade, em um contexto associado à presença de atividades como agronegócio, transporte e construção.
No consolidado nacional, os 6,4 milhões de acidentes registrados entre 2016 e 2025 resultaram em mais de 106 milhões de dias de trabalho perdidos. O estudo também aponta cerca de 248,8 milhões de dias debitados, indicador que mede o impacto permanente das ocorrências, incluindo afastamentos prolongados e incapacidades.
A evolução dos dados ao longo da década mostra crescimento expressivo após o período mais crítico da pandemia. Entre 2020 e 2025, o número de acidentes aumentou 65,8%, passando de 486.303 para 806.011 registros. No mesmo intervalo, os óbitos cresceram 60,8%.
Apesar do aumento em termos absolutos, a taxa de incidência apresentou queda no período. Segundo o estudo, a taxa de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) recuou de 29,39 em 2016 para 17,94 em 2025. O ministério atribui esse movimento ao crescimento do emprego formal, que amplia a base de trabalhadores e reduz a taxa proporcional.
O levantamento também indica mudanças no perfil das ocorrências. Os acidentes típicos seguem predominantes, representando 64,6% do total, mas os acidentes de trajeto ganharam maior participação, chegando a 19,3%. As doenças ocupacionais, por sua vez, tiveram um aumento expressivo em 2020, com mais de 35 mil registros, influenciadas por casos relacionados à Covid-19.
Participação feminina
Outro ponto destacado pelo estudo é o avanço da participação feminina. As mulheres passaram a representar 34,2% dos acidentes registrados, com crescimento de 48% no período. Em números absolutos, os registros passaram de 198.144 em 2016 para 293.204 em 2025, movimento associado à maior presença feminina em setores como saúde e serviços.
Segundo o diretor de Segurança e Saúde no Trabalho do MTE, Alexandre Scarpelli, os dados refletem tanto a ampliação da capacidade de registro quanto a necessidade de aprimorar políticas de prevenção. De acordo com ele, a consolidação das informações contribui para orientar ações de fiscalização e melhorar as condições de trabalho.
O estudo foi elaborado por auditores-fiscais do trabalho com base nas Comunicações de Acidentes de Trabalho registradas nos sistemas oficiais ao longo do período analisado.