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Região Nordeste

Crise no setor de renováveis ameaça R$ 38,8 bi em investimentos no Nordeste

Atualizado em: 20 de abril de 2026 às 13:31
Vanessa Pimentel Enviar e-mail para o Autor

Região concentra as melhores condições climáticas para geração eólica e solar, mas crescimento lento por demanda e custos são riscos

Empresas do setor de energia renovável avaliam redirecionar investimentos do Nordeste para outras regiões do país, diante de um ambiente considerado menos favorável para novos projetos. A movimentação pode resultar na suspensão de cerca de R$ 38,8 bilhões em aportes previstos entre 2025 e 2026.

Embora a região concentre as melhores condições climáticas para geração eólica e solar, com abundância de vento e sol, o setor enfrenta uma combinação de entraves. Entre eles estão o crescimento mais lento da demanda por energia, o aumento do chamado “curtailment” — corte forçado na geração — e a elevação recente dos custos operacionais, impulsionada por mudanças regulatórias e tributárias.

Entidades do setor avaliam que incentivos fiscais concedidos no passado pelo governo federal já cumpriram seu papel de estimular a expansão das fontes renováveis e, agora, com o setor mais consolidado, ajustes são necessários para evitar distorções no sistema elétrico e impactos na conta de luz dos consumidores.

Em relação à desaceleração dos investimentos, dados levantados pela Absolar e pela Abeólica mostram que em 2025, 141 usinas solares devolveram suas outorgas, o que representa R$ 18,9 bilhões em investimentos cancelados. Outros R$ 5,9 bilhões deixaram de ser realizados na comparação entre o previsto e o efetivamente executado. No segmento eólico, a retração soma cerca de R$ 14 bilhões em projetos suspensos, segundo a Abeólica.

Empresas do setor já estudam redirecionar suas estratégias. A Casa dos Ventos, uma das principais do país, admite reavaliar investimentos na região e ampliar projetos em estados como Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, mais próximos dos centros consumidores, apesar de terem menor potencial natural para geração.

Parte do aumento de custos está ligada a mudanças introduzidas pela Medida Provisória 1304, aprovada em 2025. O texto criou incentivos para sistemas de armazenamento de energia, como baterias, com o objetivo de reduzir o curtailment — fenômeno que ocorre quando há excesso de geração em relação à capacidade de consumo ou escoamento da energia.

Apesar de reconhecer a importância das baterias, o setor critica a forma como a política foi implementada. A nova regra condiciona o acesso ao Reidi — que concede benefícios fiscais — à integração com sistemas de armazenamento. Na avaliação das entidades, a exigência restringe investimentos e cria desigualdade em relação a outras fontes de energia.

Há ainda críticas a resoluções da Aneel, aprovadas em 2022, que aumentaram tarifas de uso da rede para usinas mais distantes dos grandes centros consumidores, como Sul e Sudeste. A mudança afetou principalmente projetos no Norte e Nordeste, contribuindo para a migração de investimentos.

A agência reguladora afirma que as normas foram amplamente debatidas e implementadas com mecanismos de transição para garantir previsibilidade ao mercado.

Diante da insatisfação, tramita na Comissão de Constituição e Justiça do Senado um projeto para derrubar essas regras.

Empresários também criticam a demora do governo em realizar leilões para contratação de sistemas de armazenamento, considerados essenciais para reduzir perdas de energia. Em contrapartida, apontam que recentes leilões de reserva de capacidade favoreceram usinas movidas a gás e carvão, fontes fósseis mais poluentes.

Para o setor, a indefinição regulatória ocorre em um momento estratégico, em que o Brasil poderia aproveitar seu potencial na transição energética.

Uma das apostas para impulsionar a demanda é a instalação de data centers, grandes consumidores de energia que poderiam ser abastecidos por fontes renováveis. A criação de um programa nacional para esses empreendimentos, no entanto, segue travada no Congresso.

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