Confira a entrevista com Mansueto Oliveira, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro Nacional
Um maior crescimento da economia brasileira passa necessariamente pelo aumento da competitividade das exportações do País, o que depende de uma melhor infraestrutura de transportes. E para isso, a redução da taxa básica de juros, hoje em 14,75% ao ano, é essencial. A análise é do economista-chefe do BTG Pactual, maior banco de investimentos da América Latina, e ex-secretário do Tesouro Nacional (nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro), Mansueto Almeida. A avaliação foi apresentada para lideranças do mercado empresarial na semana passada, em São Paulo, durante sua participação no Meeting Brasil-Japão, promovido pelo Grupo Brasil Export.
Logo depois, em entrevista exclusiva ao BE News, Almeida destacou o papel que o setor de transportes tem no desenvolvimento brasileiro, especialmente a partir da ampliação das malhas rodoviária e ferroviária, da maior utilização das hidrovias e da expansão da infraestrutura portuária, agilizando a logística dos produtos brasileiros e reduzindo seus custos – o que leva ao defendido crescimento da competitividade. Outra ação tratada como essencial nesse processo é a redução dos gastos públicos, permitindo ao Governo Federal diminuir o déficit de suas contas sem o aumento de impostos. Para o economista, o gestor público “precisa ser muito mais racional no controle das despesas no Brasil, justamente para abrir espaço para a gente gastar em programas que serão tão necessários para o aumento de produtividade”.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista dada por Mansueto Almeida ao BE News.
Na sua apresentação, no Meeting Brasil-Japão, o sr. destacou as ações necessárias para o desenvolvimento da economia brasileira nos próximos anos. Qual o papel do setor de transportes nesse processo?
A participação é muito importante, em especial porque, hoje, uma das atividades econômicas mais estratégicas no Brasil é a agricultura. Para a agricultura ser cada vez mais competitiva e conseguir exportar a um preço competitivo, a gente precisa ter uma infraestrutura muito boa. E isso envolve necessariamente o setor de transportes. E se a gente precisa de rodovias muito melhores, a gente precisa ter um cenário de juros menores, para que seja possível fazer os investimentos necessários, principalmente em rodovias, em ferrovias. O setor de transporte é crucial para o crescimento do Brasil.
Em sua fala, a importância do aumento da produtividade no Brasil foi destacada várias vezes. Como aumentar a produtividade no setor de transportes?
O Governo tem que ajudar as empresas, por exemplo, a ter acesso a um crédito mais barato, a investir mais. É importante termos programas de inovação, de treinamento dos trabalhadores. Mas isso tem que ser feito junto com o setor privado, entendendo os desafios do setor privado. A gente tem uma enorme agenda para realmente melhorar a produtividade do trabalhador do Brasil, porque, nos últimos anos, esse crescimento de produtividade praticamente não aconteceu. E isso será muito importante daqui para frente. Se o Brasil almeja crescer 2%, 3% ao ano, é preciso ter um crescimento de produtividade. Hoje, a economia está em pleno emprego. Então, a ampliação da geração de riquezas não passa tanto pelo aumento do emprego, mas por uma maior produtividade. Cada trabalhador tem que conseguir produzir muito mais. E para o trabalhador produzir muito mais, ele precisa ter um melhor treinamento, ter acesso a escolas de melhor qualidade. É uma agenda que envolve o setor público e o privado.
Esse processo passa por programas de pesquisa e inovação?
Sem dúvida. Esse é o desafio. Mas para a gente ter dinheiro para investir em inovação, em treinamento de trabalhador, a gente precisa controlar o gasto público, que cresceu muito. A gente precisa ser muito mais racional no controle da despesa no Brasil, justamente para abrir espaço para a gente gastar em programas que serão tão necessários para o aumento de produtividade.
Uma das principais ações do Governo Federal no setor de transportes é seu programa de concessões, que vem registrando resultados recordes. Esse é caminho? O sr. vê a necessidade de ajustes?
Eu acho que a agenda de concessões evoluiu muito no Brasil. A gente vai terminar esse ciclo de quatro anos de governo com mais ou menos perto de 30 concessões de rodovias federais, o que é muito positivo. E acho que a gente tomou uma decisão certa ao renegociar aqueles contratos antigos, que estavam causando prejuízo para as empresas. Acho que esse caminho das concessões é o caminho correto. Mas a gente tem que criar um ambiente de juros baixos, porque se o custo do capital ficar muito alto, mesmo com concessão, fica difícil investir.