Atividades ligadas ao mar respondem por até 6,4% do PIB e 4,5% do emprego no país, com destaque para petróleo, turismo e pesca
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificou a estrutura da chamada “economia azul” no Brasil, que é o conjunto de atividades econômicas que dependem diretamente dos recursos marinhos. A partir de um modelo inter-regional de insumo-produto, os autores avaliaram impactos diretos e indiretos dessas atividades, destacando a relevância econômica do litoral e suas conexões com cadeias produtivas em regiões do interior.
A pesquisa foi realizada por Eduardo Haddad, professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), e por Inácio Araújo, pesquisador de pós-doutorado no mesmo departamento. O artigo foi publicado na revista Ocean Sustainability.
“O que aportamos como inovação foi a mensuração da chamada economia do mar, com destaque para a dimensão geográfica e a interconexão da estrutura produtiva. Isso gerou um conhecimento que pode servir de base para outros modelos”, afirmou Haddad.
De acordo com o estudo, em 2019, as atividades diretamente ligadas à economia azul representaram 2,91% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e 1,07% do emprego nacional. A maior participação veio da extração de petróleo e gás natural (60,4%), seguida por administração pública e defesa (7,4%) e armazenagem e transporte (7,3%). “Em termos de valor, o grosso está no petróleo offshore, que contribui com mais de 60% do PIB Azul brasileiro. Os outros quase 40% estão distribuídos em clusters como defesa, turismo costeiro, transporte marítimo e pesca”, afirmou o pesquisador.
Ao incluir os efeitos indiretos do encadeamento produtivo com outros setores, o estudo estima que o impacto da economia azul sobe para 6,39% do PIB e 4,45% do emprego no país. “É como se eu retirasse uma planta do solo e viesse junto toda a raiz, que havia se expandido até muito longe. Quando abstraímos do conjunto da economia uma atividade ligada ao mar, como a pesca, isso afeta toda a cadeia de valor para trás e para frente. Eu costumo brincar dizendo que é por meio dessa interconexão econômica que o mar chega a Minas Gerais”, disse Haddad.
Diversidade regional
A pesquisa aponta que, embora a atividade econômica azul esteja fortemente concentrada na região Sudeste — com Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo respondendo por 82% da produção direta —, há diversidade de especializações regionais ao longo do litoral. “O que percebemos são várias nuances regionais nas economias costeiras e isso tem implicações importantes para o desenho de políticas de desenvolvimento sustentável”, observou o pesquisador. “Daí o título de nosso estudo: Tons de azul.”
O trabalho destaca o predomínio do Sudeste e parte do Sul nas áreas de petróleo e transporte marítimo, enquanto o Nordeste apresenta maior especialização em turismo costeiro e pesca artesanal. “A economia do mar é importante de formas diferentes, dependendo da região. No Rio de Janeiro, é o petróleo; no Ceará, são o turismo e a pesca”, afirmou Haddad.
A análise também elenca os 50 municípios com maior participação na economia do mar, que concentram 90% da atividade nacional. “Do total de 280 municípios costeiros, a maior parte dos mais relevantes está no estado do Rio de Janeiro, muito em função da exploração de petróleo”, destacou.
Lacuna
O estudo observa que, apesar da existência da Política Nacional para os Recursos do Mar e da Política Marítima Nacional, ainda há uma lacuna de articulação entre elas. “O que fizemos foi adotar uma abordagem integrada, que mede não apenas o efeito direto das atividades ligadas ao mar, mas também as interações com outras atividades econômicas, localizadas tanto na costa quanto no interior”, disse Haddad. “A lógica é permitir que políticas públicas regionais sejam mais bem calibradas à realidade de cada território.”
Segundo os autores, a metodologia desenvolvida já começou a ser aplicada em outros contextos, como Ilha da Madeira, Açores e Peru. “Nossa pretensão é contribuir para a formulação de decisões ambientais e econômicas mais justas, territorialmente sensíveis e eficazes”, afirmou.