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Augusto Cesar Barreto Rocha

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A crise está no olhar?

Esta visão de crise constante apaga grandes conquistas, que passam a não ter nenhuma relevância se você percebe o mundo assim. 

Falta uma semana para a eleição presidencial. A forma como a pessoa percebe o mundo provavelmente influenciará fortemente sua decisão de voto. Pessoas que não possuem esperança, que percebem o passado como mais glorioso, que não apreciam ver outras pessoas crescendo, sem que ela cresça também, que não toleram a redução da distância social, que não percebem alto emprego formal como um sinal positivo, seja porque o seu não remunera tão bem, seja porque não possui um emprego formal, enxergarão a realidade como uma grande crise.

Não me lembro de um momento no Brasil em que vivi que não houvesse crise. Sempre há crise de algo. O mundo está tão cheio de crises, uma crise permanente como discutiram no livro “Permacrisis”, Gordon Brown, Mohamed A. El-Erian e Michael Spence. Esta visão de crise constante apaga grandes conquistas, que passam a não ter nenhuma relevância se você percebe o mundo assim. O Brasil tem a perspectiva de ser a 8ª maior economia do mundo, previsão para 2027 do Fundo Monetário Internacional, quando superará a Itália e a Rússia. Ou mesmo o desemprego de 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026, segundo dados da PNAD Contínua divulgados pelo IBGE, como o menor da série histórica. Estes parâmetros não me parecem de crise. Mas haverá sempre dados em contraste: crise para uns, oportunidade para outros. Onde uns choram, outros vendem lenços.

Outra forma de ver o mundo é perceber que a Inteligência Artificial (IA) é um novo ciclo de oportunidades, se tivermos a capacidade de usar esta ferramenta, como desenvolvimento próprio, evitando ser meramente clientes de empresas estrangeiras. Este novo ciclo tecnológico abre grandes oportunidades. Se olharmos assim, teremos a chance de explorar uma grande oportunidade. Todavia, podemos olhar de outro jeito: vamos contratar e deixar empresas estrangeiras ofertarem seus produtos de IA e sermos apenas clientes, buscando um jeito de continuar como colônia digital. Podemos, inclusive, observar determinadas empresas agindo em manipulação do processo eleitoral e normalizar ou até mesmo, ficarmos felizes, pois favoreceu o nosso candidato. Para saber se isso faz sentido, é só imaginar “ao contrário”, uma empresa asiática de IA dando apoio ao candidato que você não aprecia, para ver se isso é razoável.

Passamos anos deliberando a Reforma Tributária. Quando temos a tal reforma feita, a crise agora é para não implantar a reforma! E todo o debate realizado? Quando alguns perceberam quem ganhava e quem perdia, os que perdem começam a deliberar um jeito de parar a reforma. Vamos manter como estava. Aí surge a dúvida: por que se queria tanto uma reforma? Outra questão interessante: queremos um Estado forte ou Estado fraco? Quando se fala em certas “unanimidades”, parece que queremos um Estado Forte, com um bom sistema de saúde, educação e segurança como sistemas públicos. Entretanto, não se pode gastar com saúde, educação ou segurança. Queremos muito algumas coisas, mas parece que não estamos dispostos a pagar o preço destas coisas.

Falamos em democracia e liberdade, mas não se tolera a opinião da maioria, nem se debate o interesse das minorias. A votação e a popularidade do avanço do fim da escala 6X1 para uma escala 5×2 parece um consenso nacional, após o placar da votação no legislativo. Todavia, não se verifica no debate público as vantagens deste novo mundo e novo modo de vida. Fico curioso e sem entender o que pensam os editores dos principais veículos de imprensa nacional, que falaram em tantas “perdas” ou “estimativas de perdas”, mas não deliberaram os “ganhos” ou “expectativas de ganhos” com a troca do regime de trabalho. Adoramos ver apenas as crises? Perdemos a capacidade de debater? Ou será que precisamos parar de debater e apenas fazer o que um grupo quer? Veremos como votaremos e o que a eleição nos apresentará para este dilema: crise ou oportunidade.

Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus textos publicados às terças-feiras.

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