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Adilson Luiz Gonçalves

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A relatividade do tempo

As informações se multiplicam: condicionantes, contraditórias, ambíguas e até impositivas. Quase não há tempo para processar e concluir racionalmente sobre contextos e intenções.

Minha geração viveu uma transição curiosa. 

Na década de 1960, crianças e adolescentes jogavam bola em ruas quase sem movimento.

Futebol de botão, carrinhos de “rolimã”, “pega-pega”, “esconde-esconde”, “polícia e ladrão”, “mocinho e bandido”, bola de gude, coleções de figurinhas e jogos de taco ou “espeto” faziam parte das distrações, pois os brinquedos mais sofisticados eram sonhos tão distantes que a gente nem se dava ao trabalho de sonhá-los. Aliás, nossos sonhos eram outros: estudar e trabalhar para consumá-los.

Teve época em que virou “febre” colecionar adesivos plásticos.

Lembro que meu irmão mais velho enviava cartas com textos-padrão, em inglês, para os EUA, e recebia, em resposta, cartões-postais e adesivos da Nasa, Penzoil e outras.

Os meninos competiam para ver quem tinha os vidros de janelas e malas escolares mais lotados!

Comunicação?

Duas latinhas de fermento em pó e uma linha bem esticada bastavam!

Tecnologia?

Ter um rádio “de pilha” era um rito de passagem. Quem possuía um gravador de fita cassete garantia economia e popularidade em festinhas. Os que tinham um aparelho de som estéreo ou uma câmera Super-8 eram quase ETs.

Porém, quem não tinha nada disso era menos feliz.

Lá fora, a guerra era fria, o Japão se reerguia das cinzas, com a força de National Kid, e a China ia de Mao a pior.

O tempo passou e as mudanças vieram sob forma de uma avalanche de tecnologia: telefonia móvel, internet, redes sociais, realidade virtual e aumentada, etc.

Algumas delas são, hoje, indispensáveis, mas viveríamos muito bem sem muitas das quinquilharias “de ponta” que nos são empurradas e cobradas todos os dias, não porque sejam imprescindíveis, mas para que os outros vejam que as temos.

Assim, as aparências continuam e os modismos se sucedem com velocidade vertiginosa.

A obsolescência paira sobre coisas e gentes, que também são tratadas como coisas.

As informações se multiplicam: condicionantes, contraditórias, ambíguas e até impositivas. Quase não há tempo para processar e concluir racionalmente sobre contextos e intenções.

Deve ser a tal dromocracia…

Dizem: “Comprem!”, compramos. “Façam isso!”, fazemos.

O curioso é que quem exorta raramente faz o que incentiva. Quem afirma que é a regra coloca-se acima dela.

Em suma: continuamos a sermos seduzidos, conduzidos ou coagidos, e nem sempre nos divertimos com isso. Só seguimos a “onda”.

Quem se diverte e lucra são os influenciadores, marqueteiros, midiáticos, políticos corruptos, eleitos ou não, e mistificadores em geral.

Quais os tempos melhores: aqueles ou os atuais?

Bem, isso é relativo.

Mas parece que havia mais tempo e espaço para criatividade, interatividade, amizade e liberdade de pensamento.

No entanto, ontem como hoje, a escala do tempo continua a mesma, não?

Pois é…

Talvez só estivéssemos um pouco mais atentos ao tempo.

E ele nos retribuía, agradecido!

Adilson Luiz Gonçalves escreve semanalmente para o Jornal BE News, com seus artigos publicados tradicionalmente na edição de sábado e domingo e, eventualmente, na de sexta-feira. 

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