“Cabotagem cresce, mas exige atenção”
O crescimento de 3,3% da cabotagem brasileira nos primeiros nove meses de 2026 é um resultado positivo para um país que ainda tem muito a avançar na utilização do transporte marítimo em sua matriz logística. Os dados divulgados pela Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (ABAC) mostram que o setor mantém uma trajetória de expansão, com 1,38 milhão de TEU movimentados até setembro. Entretanto, uma análise mais detalhada dos números revela diferenças importantes entre os segmentos, que precisam ser consideradas na avaliação do desempenho da atividade.
O principal destaque é o avanço das cargas feeder, responsáveis pelo transporte de contêineres vinculados ao comércio exterior entre portos brasileiros. O crescimento de 8,2% no terceiro trimestre demonstra a importância dessa modalidade para a integração dos terminais nacionais às rotas internacionais. A cabotagem exerce, nesse contexto, uma função estratégica ao ampliar as possibilidades de conexão entre os portos e contribuir para uma distribuição mais eficiente das mercadorias. Trata-se de um papel que merece ser fortalecido por investimentos em infraestrutura e pela ampliação da capacidade operacional.
Por outro lado, a perda de ritmo das cargas domésticas merece atenção. Depois de registrar crescimento nos dois primeiros trimestres, esse segmento apresentou retração de 1,9% entre julho e setembro. Embora o resultado acumulado permaneça positivo, a mudança de trajetória acende um sinal de alerta. O transporte marítimo entre portos nacionais representa uma alternativa importante ao modal rodoviário, especialmente nas longas distâncias. Sua expansão depende de condições competitivas, regularidade dos serviços e integração eficiente com os demais meios de transporte.
Outro dado relevante é o avanço de 47,8% nas operações com países do Mercosul entre janeiro e setembro. Apesar de representar um volume menor que o dos segmentos doméstico e feeder, o crescimento evidencia o potencial das conexões marítimas regionais. Ao mesmo tempo, o ritmo geral de expansão das empresas associadas à ABAC está abaixo daquele registrado em 2025. Isso não significa necessariamente uma reversão de tendência, mas recomenda cautela diante de projeções mais otimistas para o fechamento de 2026.
As restrições à navegação na Amazônia acrescentam um desafio ao cenário. A estiagem e a consequente redução do calado disponível exigem adaptações operacionais, aumentam custos e podem comprometer a regularidade do abastecimento de Manaus. A recorrência dessas dificuldades demonstra a necessidade de planejamento de longo prazo, monitoramento das condições dos rios e soluções que reduzam a vulnerabilidade das operações às variações climáticas. A previsibilidade é especialmente importante para as cadeias produtivas que dependem do transporte aquaviário.
Os resultados da cabotagem confirmam a relevância crescente do setor para a logística brasileira, mas também mostram que o avanço não ocorre de maneira uniforme. O fortalecimento das cargas feeder e das operações com o Mercosul deve ser acompanhado por medidas que estimulem o transporte doméstico e ampliem a resiliência da infraestrutura aquaviária. Mais do que celebrar os números positivos, é necessário identificar os obstáculos que ainda limitam o aproveitamento do potencial da cabotagem. O desafio é transformar o crescimento registrado nas estatísticas em ganhos duradouros de eficiência, competitividade e integração logística.