Desenvolvimento não deve obedecer ao calendário eleitoral
É claro que continuidade não significa manter tudo indefinidamente. Governos precisam avaliar, corrigir rumos, estabelecer novas prioridades e substituir aquilo que não funciona. Mas existe uma diferença entre aprimorar uma política pública e abandoná-la por uma questão de autoria.
Uma cidade, um porto e uma economia não começam do zero a cada quatro anos. Existe uma diferença importante entre o tempo de uma gestão pública e o tempo necessário para transformar uma realidade. Projetos de infraestrutura, investimentos, qualificação profissional e desenvolvimento econômico podem levar anos para serem planejados, executados e amadurecidos.
É justamente por isso que algumas agendas precisam ser tratadas como políticas de Estado, e não como projetos de uma determinada gestão. Infraestrutura, logística, qualificação profissional, atração de investimentos, planejamento urbano e a relação Porto-Cidade são exemplos de temas cujo impacto ultrapassa qualquer mandato. São compromissos que precisam de continuidade entre diferentes administrações para que o planejamento de longo prazo não seja interrompido antes de produzir seus resultados.
E aqui não devemos tratar continuidade como uma questão ideológica ou política, mas como uma questão de eficiência e resultado. Projetos devem ser avaliados pelo que entregam à sociedade. Quando uma política funciona, ela deve ter condições de continuar, ser aprimorada e atravessar administrações. Quando não funciona, deve ser corrigida ou substituída. O que não faz sentido é interromper uma iniciativa simplesmente porque mudou a gestão.
A pergunta, portanto, deveria ser: quem perde quando um projeto estruturante é interrompido? Perde a população, que deixa de receber uma obra ou serviço capaz de melhorar sua qualidade de vida. Perdem os trabalhadores, quando programas de qualificação ou geração de emprego são descontinuados. Perdem os empresários, diante de mudanças constantes de planejamento e prioridades. Perdem os investidores, que precisam de previsibilidade para alocar capital em projetos de longo prazo. E perde o próprio poder público, que pode acabar gastando novamente tempo e recursos para retomar aquilo que já havia sido planejado antes.
O Porto de Santos deixa essa discussão ainda mais evidente. Um porto não se expande no ritmo de um mandato. Uma ferrovia não se planeja para quatro anos. Uma nova conexão logística não é construída pensando apenas no presente. A formação de profissionais para atender às novas demandas da economia também exige tempo. Estamos falando de investimentos, obras, contratos, tecnologia, qualificação e planejamento que precisam considerar não apenas a próxima etapa, mas aquilo que será necessário daqui a cinco, dez ou vinte anos.
Se o prazo de maturação de um projeto é maior que o mandato de quem o iniciou, sua continuidade não pode depender da duração desse mandato. Essa deveria ser uma premissa básica quando falamos de desenvolvimento. O planejamento precisa sobreviver às mudanças de gestão porque os desafios que pretende enfrentar também sobrevivem a elas.
Isso vale também para o ambiente de negócios. Empresas que investem em infraestrutura, logística, tecnologia ou expansão produtiva não tomam decisões pensando apenas nos próximos meses. Grandes investimentos dependem de previsibilidade, segurança jurídica e clareza sobre os caminhos que serão percorridos. A estabilidade das políticas públicas, acompanhada de avaliação e aperfeiçoamento, ajuda a criar condições para que investimentos sejam feitos, empregos sejam gerados e novas oportunidades apareçam.
No fim, os beneficiários são as pessoas que vão utilizar aquela infraestrutura, acessar aquela oportunidade ou se beneficiar daquele ambiente econômico nos anos seguintes. O verdadeiro indicador deveria ser o que aquela iniciativa entregou para a população, para o trabalhador e para a economia.
É claro que continuidade não significa manter tudo indefinidamente. Governos precisam avaliar, corrigir rumos, estabelecer novas prioridades e substituir aquilo que não funciona. Mas existe uma diferença entre aprimorar uma política pública e abandoná-la por uma questão de autoria. A maturidade de uma gestão também está em reconhecer aquilo que merece ser preservado e aperfeiçoado, independentemente de quem tenha dado o primeiro passo.
Quando uma infraestrutura melhora a eficiência logística, importa o impacto que essa melhoria traz para toda a cadeia produtiva. Quando uma iniciativa ajuda a viabilizar um investimento e a criação de novos empregos, importa o benefício que ela produz para a economia. Quando uma política pública contribui para que um trabalhador encontre uma oportunidade de emprego, o que deve ser considerado é o impacto que essa oportunidade gera em sua vida. Em todos esses casos, o que deve prevalecer é o benefício entregue à sociedade.
Os desafios de uma cidade, de um porto e de uma economia permanecem através das gestões. Nesse sentido, o desenvolvimento também precisa permanecer como um compromisso coletivo, construído e aperfeiçoado ao longo do tempo. Quem administra hoje tem a responsabilidade de entregar resultados para o presente, mas também de deixar preparado o caminho para quem virá depois.
Bruno Galoti Orlandi escreve quinzenalmente para o BE News, com seus textos publicados às segundas-feiras.