Eletrificação portuária: o que Portsmouth ensina ao Brasil sobre descarbonização
A transição energética dos portos não é apenas um compromisso ambiental: é uma decisão estratégica sobre eficiência, inovação e competitividade.
Representar o Brasil por meio do Instituto PORTa no GreenPort Congress 2026, realizado na Inglaterra entre os dias 5 e 9 de outubro, foi uma oportunidade de acompanhar de perto as transformações que estão redefinindo o futuro do setor marítimo-portuário. Um dos principais fóruns internacionais dedicados à sustentabilidade portuária, o evento reuniu especialistas, autoridades, pesquisadores e empresas para discutir caminhos para a descarbonização e a modernização das operações.
Durante o congresso, apresentei o trabalho “Dredging and Predictability: Waterway Resilience and Logistical Governance in Response to the 2026 Amazon Drought”, sobre os impactos dos eventos climáticos extremos na navegabilidade amazônica e a importância da governança logística para fortalecer a resiliência das hidrovias brasileiras.
A programação incluiu uma visita técnica ao Portsmouth International Port, onde conheci o projeto Sea Change, iniciativa britânica de eletrificação portuária que permite o fornecimento de energia elétrica aos navios atracados. Conhecida como Shore Power, essa tecnologia possibilita desligar os geradores auxiliares das embarcações durante a permanência no cais, reduzindo emissões atmosféricas, ruídos e consumo de combustíveis fósseis.
A experiência de Portsmouth evidencia que a descarbonização portuária vai muito além da instalação de equipamentos. O projeto resulta de planejamento de longo prazo, investimentos em infraestrutura e articulação entre autoridades públicas, operadores portuários, armadores e fornecedores de tecnologia.
Durante a visita, também foi possível observar o sistema de gerenciamento de cabos de alta potência utilizado na conexão entre o porto e as embarcações. Equipamentos dessa natureza são fundamentais para garantir segurança e eficiência no fornecimento de energia, tornando viável a eletrificação de diferentes tipos de navios.
Uma transformação que vai além da tecnologia
O Shore Power, também conhecido como Onshore Power Supply (OPS), integra uma agenda global de redução das emissões do transporte marítimo. Ao substituir a geração de energia a bordo por eletricidade fornecida em terra, a tecnologia pode reduzir a emissão de dióxido de carbono, óxidos de nitrogênio, óxidos de enxofre e material particulado, além de melhorar a qualidade do ar e diminuir os ruídos nas áreas portuárias.
Os resultados ambientais, entretanto, dependem também da origem da eletricidade utilizada. É nesse aspecto que o Brasil reúne condições especialmente favoráveis.
Com uma matriz elétrica predominantemente renovável, o país possui potencial para ampliar os benefícios ambientais da eletrificação portuária. A substituição dos geradores a diesel por energia fornecida em terra pode representar uma redução expressiva das emissões associadas às embarcações, desde que acompanhada de infraestrutura adequada e de planejamento técnico, econômico e operacional.
O Brasil já tem experiências concretas
O Porto de Santos oferece um exemplo importante desse movimento. Em 2024, foi inaugurado um sistema de fornecimento de energia elétrica para rebocadores atracados, com capacidade para atender simultaneamente até três embarcações e utilização de energia proveniente da Usina Hidrelétrica de Itatinga.
Embora tenha escala diferente dos projetos internacionais voltados a navios de maior porte, a iniciativa demonstra a viabilidade da eletrificação no contexto brasileiro e abre caminho para novas aplicações. Em Suape, estudos para avaliar a implantação de sistemas de fornecimento de energia elétrica a embarcações também apontam para o crescente interesse do setor nessa solução.
O desafio agora é ampliar essas experiências, considerando as particularidades de cada porto, os perfis das embarcações atendidas, a capacidade da rede elétrica, os custos de implantação e os modelos de financiamento. A integração entre autoridades portuárias, empresas de energia, armadores e poder público será decisiva para transformar projetos-piloto em políticas consistentes de modernização.
Competitividade e sustentabilidade caminham juntas
A visita a Portsmouth reforçou uma percepção essencial: os portos estão deixando de ser apenas pontos de movimentação de cargas para assumir um papel estratégico na transição energética das cadeias logísticas. Investir em eletrificação significa contribuir para a redução das emissões, melhorar as condições ambientais das cidades portuárias e preparar a infraestrutura para as novas exigências do comércio internacional.
Para o Brasil, essa agenda representa também uma oportunidade de posicionamento estratégico. A combinação entre uma matriz elétrica renovável, experiência operacional já iniciada e capacidade de inovação pode favorecer a adoção de soluções de menor impacto ambiental e ampliar a competitividade dos portos nacionais.
A experiência britânica mostra que os avanços dependem de visão de longo prazo, cooperação institucional e investimentos consistentes. O Brasil já dispõe de condições importantes para avançar nessa direção. O próximo passo é acelerar a implementação de projetos, ampliar a cooperação entre os diferentes agentes do setor e transformar seu potencial energético em resultados concretos para a infraestrutura portuária.
A transição energética dos portos não é apenas um compromisso ambiental: é uma decisão estratégica sobre eficiência, inovação e competitividade. E o Brasil tem a oportunidade de fazer parte dessa transformação de forma protagonista.
Maria Eduarda Medeiros produziu esse texto com curadoria do Instituto PORTa.