sexta-feira, 30 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

Eólica offshore: os portos têm de cinco a sete anos para ficar prontos

O Ministério de Minas e Energia (MME) e o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) apresentaram, no Brazil Windpower 2026, um diagnóstico que faltava ao debate sobre energia eólica no mar: nenhum dos seis portos brasileiros selecionados, entre 43 instalações analisadas, está plenamente preparado para atender grandes terminais dedicados à atividade. Pecém (CE), Suape (PE), Porto Central (ES), Açu (RJ), Imbituba (SC) e Rio Grande (RS) precisam de mais áreas de armazenamento e montagem, cais reforçados e espaços operacionais adequados às exigências de segurança. O estudo, elaborado pela consultoria Cowi em cooperação com a Dinamarca, é incômodo na medida certa: mostra que o marco legal da Lei 15.097/2025 criou a possibilidade de um mercado, mas não a infraestrutura que o sustentará.

O prazo é o dado central. A chefe de Gabinete da Secretaria Nacional de Portos, Marina Bailão, afirmou que as adaptações podem levar de cinco a sete anos ou mais, e os primeiros projetos são esperados entre 2032 e 2035. A conta é simples: quem não começar a planejar em 2027 ou 2028 chegará ao início das obras dos parques sem um porto capaz de recebê-las. Turbinas de 15 a 20 megawatts têm pás e torres de dimensões que exigem cais com alta capacidade de carga e retroáreas amplas para pré-montagem. Esse tipo de infraestrutura não se improvisa, e licenciamento, financiamento e obra consomem o tempo que os documentos de planejamento costumam subestimar.

A distinção entre os dois cenários do estudo ajuda a calibrar a estratégia. No cenário Large Offshore, com turbinas distantes mais de 20 quilômetros da costa, as exigências portuárias são pesadas e tendem a se concentrar em poucos complexos. No cenário Nearshore, com turbinas menores a até 20 quilômetros do litoral, há espaço para adaptar e compartilhar instalações existentes, o que reduz o investimento inicial. Faz sentido que o País comece pelo segundo caminho enquanto prepara os portos para o primeiro, sem apostar tudo em uma única hipótese de demanda.

Este estudo acerta ao deixar claro que a seleção dos seis portos não determina onde os parques serão instalados. A escolha precisa seguir a lógica dos investidores, e o papel do Estado é remover os obstáculos que ele controla. Três deles são verificáveis. O primeiro é incorporar a demanda eólica offshore ao planejamento portuário e aos planos de Desenvolvimento e Zoneamento, com áreas reservadas, para que não sejam ocupadas por outros usos nos próximos anos. O segundo é definir cedo as áreas prioritárias para os parques, porque sem elas nenhum porto sabe para qual escala deve investir. O terceiro é o licenciamento: os mesmos impasses que atrasam dragagens e concessões hidroviárias travarão a adaptação dos cais se não houver rito previsível.

Há ainda uma oportunidade de sinergia. Os portos citados são, em boa parte, os mesmos que disputam hidrogênio verde, minerais críticos e biobunker, e a mesma retroárea e o mesmo cais podem servir a mais de uma cadeia. Pecém e Suape já avançam em transição energética, Açu e Porto Central têm áreas expressivas e Rio Grande e Imbituba ampliam sua vocação industrial. Um planejamento que trate essas demandas em conjunto evita que cada setor reserve a mesma área e que o Estado financie obras redundantes.

O estudo entregou o diagnóstico, e Karina Araújo, diretora do Departamento de Transição Energética do MME, acertou ao chamá-lo de guia sem caráter impositivo. O risco é que um guia sem consequência vire mais um documento arquivado. Que o próximo passo seja um cronograma público de decisões até 2028, com responsáveis nomeados, para que em 2032 os portos brasileiros estejam prontos para os investidores que os ventos do mar atrairão.

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