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Fifa, Uefa e a lição sobre o valor do seu capital simbólico

Existe um abismo entre ser competente e ocupar um lugar de referência. A competência entrega resultados. A referência altera decisões. Quando alguém passa a influenciar escolhas antes mesmo de começar a executar o trabalho, sua posição deixa de depender unicamente da qualidade da entrega final. Ela passa a se apoiar na reputação e na confiança acumuladas ao redor daquela entrega.

Quando a Fifa (a Federação Internacional de Futebol) apresentou a proposta de criar uma empresa para administrar comercialmente a Copa do Mundo e abrir parte desse negócio para investidores privados, o debate rapidamente virou uma discussão sobre dinheiro. A lógica parecia simples: transformar um dos maiores ativos do esporte em uma estrutura capaz de captar novos recursos, ampliar investimentos e acelerar o crescimento das receitas. Poucos dias depois, a proposta foi retirada. Essa mudança de direção merece um olhar mais atento, porque ela ajuda a compreender um mecanismo que funciona em qualquer ambiente onde decisões econômicas são tomadas.

A reação da Uefa (em português, União das Associações Europeias de Futebol) foi decisiva para esse desfecho. A entidade europeia rejeitou a ideia, questionou a forma como ela havia sido construída e sinalizou que estava disposta a levar o conflito até as últimas consequências. O episódio mostra como determinadas organizações possuem a capacidade de alterar decisões que, em tese, não caberiam a elas. Só que essa força não nasce do dia para a noite. Ela costuma ser construída muito antes de o conflito acontecer.

Toda decisão relevante envolve, no fundo, uma relação de poder. E poder, nesse contexto, não tem a ver com autoridade formal. Significa a capacidade real de alterar o comportamento de outros agentes. Empresas fazem isso diariamente. Instituições fazem isso. Pessoas também.

A FIFA tinha toda a autoridade do mundo para apresentar a proposta, mas a UEFA simplesmente não precisava concordar com ela. A partir daí, a questão virou puramente estratégica. Se a resistência europeia fosse suficiente para enfraquecer a legitimidade das competições da FIFA, o custo de bancar a ideia poderia superar qualquer benefício financeiro. O recuo mostrou que esse risco entrou pesado na equação.

Esse é o tipo de dinâmica que acontece diariamente nas empresas sem que ninguém dê o nome correto a ela. Há profissionais cuja presença modifica o rumo de uma reunião antes mesmo de abrirem a boca. Existem empresas que conseguem fechar contratos muito melhores simplesmente por conta da posição que ocupam no mercado. Existem marcas que influenciam decisões sem precisar disparar uma única campanha publicitária. Em todos esses casos, há um ativo invisível trabalhando em segundo plano.

Esse ativo não pode ser comprado na bolsa nem registrado em cartório. Ele é moldado pela forma como os outros interpretam uma trajetória. Cada entrega feita, cada decisão tomada, cada negociação conduzida, conflito administrado e compromisso cumprido vão alimentando essa percepção. Com o passar do tempo, esse conjunto de atitudes começa a produzir consequências econômicas muito concretas.

É por isso que profissionais com currículos quase idênticos costumam ocupar posições completamente diferentes. A diferença raramente está na capacidade técnica em si. Ela aparece na maneira como o mercado enxerga essa capacidade. Quem consegue reduzir a percepção de risco ao seu redor passa a participar de conversas diferentes, recebe convites diferentes e acessa espaços que dificilmente são conquistados apenas por acúmulo de conhecimento.

O mercado funciona à base de expectativa. Quem contrata um executivo, um consultor, um advogado ou um fornecedor nunca tem certeza do resultado futuro daquela escolha. Toda contratação traz uma dose de aposta. Quanto menor for a incerteza percebida, maior tende a ser a disposição do outro lado para confiar recursos, grandes projetos e responsabilidades.

Foi exatamente isso que ficou evidente na disputa entre FIFA e UEFA. O centro da discussão nunca foi apenas o dinheiro em jogo. O verdadeiro ativo em disputa era a confiança depositada em uma competição construída ao longo de décadas. A proposta financeira só fazia algum sentido porque esse ativo prévio já existia. Sem ele, não haveria investidores interessados, patrocinadores disputando contratos nem emissoras pagando cifras bilionárias por direitos de transmissão.

E esse costuma ser um erro clássico na gestão de carreira. Muitos profissionais concentram toda a sua energia em aumentar faturamento, buscar visibilidade imediata ou ampliar a própria exposição. Poucos cuidam de administrar o ativo de fundo que torna todos esses resultados sustentáveis. A consequência surge quando profissionais brilhantes continuam invisíveis para as decisões mais importantes do seu mercado.

Existe um abismo entre ser competente e ocupar um lugar de referência. A competência entrega resultados. A referência altera decisões. Quando alguém passa a influenciar escolhas antes mesmo de começar a executar o trabalho, sua posição deixa de depender unicamente da qualidade da entrega final. Ela passa a se apoiar na reputação e na confiança acumuladas ao redor daquela entrega.

O sociólogo Pierre Bourdieu traduziu esse fenômeno ao analisar o conceito de capital simbólico. Reconhecimento, legitimidade e prestígio não ficam isolados no campo social; eles alteram as relações de poder e se convertem diretamente em vantagens econômicas. O mercado faz essa conversão o tempo todo, mesmo quando não se dá conta de que está fazendo.

Talvez essa seja a grande lição do episódio entre Fifa e Uefa. O valor de um ativo não depende apenas da receita direta que ele consegue gerar hoje. Depende, principalmente, da sua capacidade de moldar as decisões de amanhã — algo que grandes empresas já entenderam há muito tempo, mas que ainda são poucos os profissionais que aplicam na condução da própria carreira.

Clara Laface escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às terças-feiras.

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