Infraestrutura: projeto de Estado, não de governo
Continuidade não significa blindar decisões contra a fiscalização nem impedir correções de rota. Significa que as mudanças sejam justificadas por evidências e resultados, e não pela necessidade de cada gestão de imprimir sua marca.
O desenvolvimento de um país depende não apenas da capacidade de investir, mas também de sustentar decisões estratégicas ao longo do tempo. Em infraestrutura, essa condição é ainda mais decisiva: portos, ferrovias, rodovias, aeroportos e hidrovias exigem planejamento de longo prazo, recursos elevados e anos de execução. Quando cada mudança de governo redefine prioridades e interrompe projetos, o custo ultrapassa os limites da administração pública e compromete o desenvolvimento e a competitividade de toda a economia.
O Brasil convive há décadas com esse desafio: projetos anunciados, estudados, revistos e, muitas vezes, abandonados antes de produzir resultados, com enorme prejuízo à sociedade. Mudanças de orientação fazem parte do processo democrático, mas não deveriam significar o descarte automático de estudos, investimentos e decisões técnicas acumulados por diferentes gestões. É preciso distinguir a alternância legítima de poder da descontinuidade administrativa.
A infraestrutura não obedece ao calendário eleitoral. Uma ferrovia não se viabiliza em quatro anos, assim como a ampliação de um porto ou a modernização de uma rodovia não entregam todos os seus benefícios em um único mandato. São projetos que precisam atravessar governos com coerência e previsibilidade para investidores, operadores e usuários. Sem essa perspectiva, o país passa a administrar urgências em vez de construir soluções duradouras.
Os efeitos da instabilidade são concretos. Investidores precisam de segurança regulatória para comprometer capital em ativos de longa maturação. Empresas, exportadores e importadores dependem de prazos e custos logísticos previsíveis. Quando obras atrasam, concessões mudam de direção ou regras são revistas com frequência, a incerteza se converte em custo para toda a economia.
A questão não se resume à escolha entre gestão pública ou privada. Cada projeto exige avaliação própria, com transparência, critérios técnicos e atenção ao interesse público. O essencial é que decisões dessa dimensão partam de objetivos nacionais claros, e não apenas das prioridades de uma administração. Estudos e modelagens devem ser avaliados pelo mérito; se houver razões para alterá-los, a mudança deve ser fundamentada, sem desprezar o conhecimento acumulado.
Esse conhecimento também está nas pessoas. Engenheiros, administradores, especialistas regulatórios e técnicos acumulam experiência que não deveria se perder a cada troca de comando. Valorizar equipes qualificadas, fortalecer a governança e escolher dirigentes com critérios transparentes é fundamental para preservar a memória institucional.
O setor portuário ilustra a dimensão nacional do desafio. No Porto de Santos, decisões sobre capacidade, acessos, dragagem, integração ferroviária e modernização tecnológica afetam cadeias produtivas que vão muito além do litoral paulista. E o problema se repete em outros corredores, onde a falta de integração entre modais e de continuidade limita o retorno dos investimentos.
O Brasil precisa pensar sua infraestrutura como um sistema integrado. Não basta ampliar um terminal se os acessos não acompanham a demanda, construir uma ferrovia desconectada dos centros de produção ou investir em rodovias sem articulá-las a portos, aeroportos e hidrovias. A eficiência depende da continuidade do planejamento e da coordenação entre projetos que, muitas vezes, estão sob responsabilidades distintas.
Isso exige uma agenda além dos mandatos, com metas claras, governança e prestação de contas.
Continuidade não significa blindar decisões contra a fiscalização nem impedir correções de rota. Significa que as mudanças sejam justificadas por evidências e resultados, e não pela necessidade de cada gestão de imprimir sua marca.
A competição internacional torna o tema mais urgente. Outros países investem para tornar sua logística mais eficiente e atrair negócios. Cada atraso brasileiro representa tempo perdido, recursos imobilizados e oportunidades que migram para mercados mais previsíveis. Nas cadeias globais, a instabilidade institucional pesa na decisão de onde investir.
A alternância de governo é essencial à democracia. O que não pode ser tratado como inevitável é a interrupção recorrente de políticas e projetos necessários ao desenvolvimento. O país precisa de uma cultura de planejamento em que governos tenham liberdade para definir prioridades, mas respeitem compromissos estratégicos, valorizem a competência técnica e deem continuidade ao que se mostrar relevante.
Infraestrutura é, por definição, política de Estado. Seus efeitos atravessam regiões, ciclos econômicos e mandatos. O desafio brasileiro não é apenas investir mais, mas planejar melhor, integrar decisões e preservar o que funciona. O país não pode se dar ao luxo de recomeçar a cada quatro anos: a continuidade não é privilégio da gestão, mas condição para competir, crescer e transformar potencial em desenvolvimento.
Que venham mudanças e não descontinuidades.
Bayard Umbuzeiro Neto escreve para o BE News quinzenalmente, com seus artigos publicados sempre às quintas-feiras.