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Gilmara Temóteo

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Mulheres na infraestrutura: presença conquistada, poder ainda em construção

O desafio, portanto, não é apenas aumentar o número de mulheres nas estruturas organizacionais. É garantir que elas tenham voz, influência e condições efetivas de exercer liderança.

A presença feminina no setor de infraestrutura brasileiro avançou . Mulheres passaram a ocupar posições de liderança em portos, transportes, energia, logística e órgãos reguladores, rompendo barreiras históricas em ambientes masculinos. São conquistas importantes. Mas uma reflexão se impõe: estamos construindo uma transformação institucional ou apenas celebrando trajetórias individuais? 

Durante muito tempo, o principal desafio foi abrir portas. Hoje, precisamos discutir o que acontece depois que as mulheres conseguem atravessá-las. Quantas chegam efetivamente aos espaços de decisão? Quantas encontram oportunidades de crescimento? E quantas conseguem consolidar suas trajetórias sem que sua permanência dependa de circunstâncias políticas ou escolhas de gestores? 

Essas perguntas ganham relevância em períodos de transição administrativa, como neste ciclo eleitoral. Mudanças de governo fazem parte da democracia e afetam o comando de empresas públicas, autoridades portuárias e instituições. Entretanto, a renovação de lideranças não deveria significar a descontinuidade de avanços conquistados na diversidade e na valorização de competências. 

A questão não é defender a permanência de pessoas em cargos, mas a continuidade de princípios. Governos passam, administrações se renovam, mas o compromisso com a qualificação, a diversidade e a qualidade da gestão precisa permanecer. 

Ao longo da minha trajetória no setor portuário, tive a oportunidade de ocupar posições que eram reservadas aos homens. Ser pioneira representa uma conquista, mas também uma responsabilidade. Aprendi que abrir caminhos tem pouco significado se não contribuirmos para que outras mulheres possam percorrê-los com menos obstáculos. 

E os obstáculos ainda existem. Redes de relacionamento restritas, critérios opacos de escolha, ausência de políticas estruturadas de sucessão e a necessidade recorrente de demonstrar competência são barreiras que precisam ser enfrentadas. 

Não se trata de defender nomeações apenas por gênero. Trata-se de assegurar que mulheres qualificadas tenham oportunidades reais de competir, liderar e participar das decisões da infraestrutura brasileira. 

Nesse contexto, a diversidade precisa deixar de depender da sensibilidade individual de cada gestor e passar a integrar os mecanismos de governança. Isso exige critérios objetivos de seleção, formação de lideranças, programas de mentoria, planejamento sucessório e indicadores de presença, progressão e permanência feminina. 

À frente do Conselho Feminino do Brasil Export, tenho defendido que ampliar a participação das mulheres significa fortalecer o próprio setor de infraestrutura. Experiências e perspectivas diversas fortalecem a análise, a inovação e a tomada de decisão. 

O desafio, portanto, não é apenas aumentar o número de mulheres nas estruturas organizacionais. É garantir que elas tenham voz, influência e condições efetivas de exercer liderança.

A próxima década precisa representar a passagem de conquistas individuais para avanços institucionais. Precisamos construir um ambiente em que a presença feminina nos cargos estratégicos deixe de ser notícia excepcional e passe a refletir, a competência e a diversidade do setor. 

Porque o verdadeiro avanço não será medido apenas pelo número de mulheres que conseguiram chegar, mas pela capacidade das nossas instituições de assegurar que muitas outras também possam liderar. Transformar presença em participação, participação em liderança e liderança em poder de decisão. Esse é o compromisso que precisa permanecer, independentemente de quem esteja no governo.

Gilmara Temóteo. Diretora Executiva da Associação Brasileira de Entidades Portuárias e Hidroviárias (Abeph) e presidente do Conselho Feminino do Brasil Export.

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