terça-feira, 13 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Augusto Cesar Barreto Rocha

Clique para ver mais

Articulista

Nuvens nacionais e os caminhos do capitalismo brasileiro

Sem tecnologia própria, o País perde capacidade de inovação. Sem compreensão social, perde capacidade de coordenação. Sem soberania política, perde capacidade de decisão.

Semana passada, neste espaço, refleti sobre o quanto é fundamental a construção de muitos centros de dados com armazenamento no País. A soberania precisa ser retomada para o armazenamento de dados. Todavia, há capital e tecnologias nacionais para isso? O modelo de financiamento tecnológico nosso atende a este tipo de oportunidade?

Claramente, o modelo atual de financiamento brasileiro não trata este tipo de questão. O Governo e o ambiente privado não colocam recursos neste tipo de empreendimento. Todos aqueles que têm interesse em construir negócios de alta tecnologia são pouco a pouco empurrados para uma venda para empresas estrangeiras. E há um entendimento geral de que isso é positivo.

Prevalece no País uma prática e uma cabeça de colônia. Tanto é que as eleições apresentam resultados expressivos nesta direção. Ouvimos pessoas nas ruas falando com naturalidade sobre a importância de ter um país estrangeiro indicando o que fazer por aqui. Até que ponto as pessoas de fato entendem que a soberania nacional é algo fundamental é uma pergunta relevante nos dias de hoje?

Além da soberania no território físico e da dinâmica dos dados, surge ainda a questão das relações sociais. As chamadas “redes sociais” realizam a intermediação da informação de todos com todos. Se um regime totalitário nacional é perigoso e inaceitável, por que um regime semelhante estrangeiro também não seria? Estamos pouco a pouco perdendo a soberania em vários campos, enquanto os centros tecnológicos e de pensamento sociológico vão sendo minados e desabastecidos de recursos.

A opção de redução de gastos – a chamada “austeridade” – ou mesmo a transferência da educação para empresas privadas estrangeiras vão construindo uma teia de oportunidades de transferência de capital para o exterior. E isso viabilizará “nuvens” para armazenamento de dados nacionais? De maneira alguma. A ideia fixa de concessões e de estrangeiros no comando está tomando conta da elite capitalista nacional.

A dificuldade que existe neste modelo é que o espaço para o capitalismo nacional vai se reduzindo, pois criaremos famílias ricas, com empreendimentos pontuais, mas sem a capacidade de negócios transnacionais com base no Brasil. Quando surge um ou outro empreendimento com esta capacidade, os olhares sempre são críticos. Parece que o capitalismo não nos cabe ou não seria aceitável para brasileiros.

A geração de riqueza em grande escala depende de tecnologia avançada, de compreensão das dinâmicas sociais e de redes empresariais alinhadas a governos soberanos. Sem tecnologia própria, o País perde capacidade de inovação. Sem compreensão social, perde capacidade de coordenação. Sem soberania política, perde capacidade de decisão. Fora dessa articulação, reaparece o velho modelo colonial ou feudal, rebatizado no mundo contemporâneo como “tecnofeudalismo” por Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia. Ao invés de construir um capitalismo brasileiro, a elite econômica nacional parece preferir transformar o País em feudo de corporações estrangeiras.

Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus textos publicados às terças-feiras.

Compartilhe:
TAGS

Leia também