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Alfredo Rodrigues

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O marítimo digital: um desafio para as ambições brasileiras na navegação

O mercado de trabalho atual busca o “marítimo digital”, um profissional que combina o rigor técnico da marinharia tradicional com alto letramento digital, visão sistêmica e capacidade de resolução de problemas complexos.

Enquanto o debate sobre a transição energética e a modernização da infraestrutura de transportes ganha força nas principais capitais financeiras, um gargalo silencioso ameaça minar as ambições marítimas de diversas nações. Grupos privados e governos ao redor do globo têm anunciado investimentos bilionários na ampliação de frotas, na automação portuária e na consolidação de cadeias de suprimento resilientes. No entanto, frotas, guindastes de última geração e navios autônomos são apenas símbolos de poder marítimo. O verdadeiro divisor de águas entre o fracasso e o sucesso de uma estratégia soberana reside no fator humano: na capacidade de formar, capacitar e reter profissionais aptos a operar em uma indústria profundamente transformada pela tecnologia.

Historicamente, o perfil do trabalhador do setor navegação era mensurado por um indicador simples e objetivo: a capacidade de formar aquaviários licenciados para guiar embarcações de ponto a ponto. Essa missão tradicional, embora continue indispensável, tornou-se insuficiente. O navio moderno deixou de ser um mero meio de transporte de carga para se converter em um centro móvel de processamento de dados. Sistemas de inteligência artificial, diagnósticos remotos, manutenção preditiva, sensores avançados, procedimentos automatizados e protocolos rígidos de cibersegurança agora integram o ecossistema básico da navegação comercial e offshore.

Essa mudança de paradigma reconfigura de forma radical as competências exigidas. O mercado de trabalho atual busca o “marítimo digital”, um profissional que combina o rigor técnico da marinharia tradicional com alto letramento digital, visão sistêmica e capacidade de resolução de problemas complexos. Mais do que executar procedimentos operacionais decorados, exige-se uma habilidade contínua de interpretação de dados e adaptabilidade diante de ecossistemas tecnológicos em constante evolução. E essa necessidade não se restringe à tripulação a bordo, estende-se aos estaleiros, aos operadores de terminais portuários automatizados, à gestão de risco e à logística em solo.

Para o Brasil, o momento é crítico. O País ostenta uma posição estratégica única no Atlântico Sul, impulsionada pelo dinamismo do agronegócio, pela exploração de petróleo em águas profundas e pelo enorme potencial do transporte por cabotagem e da navegação interior. O crescimento das demandas por energia limpa, como a eólica offshore, abre novos horizontes de expansão para a economia do mar. No entanto, a infraestrutura nacional corre o risco de encontrar um freio de arrasto caso a formação dessa mão de obra não receba o status de prioridade estratégica por parte do poder público e da iniciativa privada.

Atualmente, o modelo de formação de aquaviários no Brasil, predominantemente vinculado às diretrizes da Marinha do Brasil por meio dos centros de instrução especializados, cumpre um papel fundamental para manter os padrões internacionais de segurança. Contudo, a velocidade das transformações exigidas pelo mercado mundial impõe uma atualização do ecossistema educacional do setor. É urgente descentralizar e diversificar as trilhas de capacitação, integrando de forma mais robusta as universidades, os institutos federais e o Sistema S ao ecossistema da economia do mar.

Instituições internacionais de ensino marítimo já perceberam que a capacitação precisa extrapolar a emissão da licença de navegação. Cursos focados em engenharia de instalações, gestão ambiental, resposta a emergências e automação de processos portuários figuram no centro das atenções. O Brasil precisa replicar essa visão integrada, conectando a matriz curricular diretamente às demandas operacionais reais do setor produtivo.

Essa tarefa não pode ser delegada exclusivamente ao estado. A iniciativa privada, que reúne armadores, estaleiros, operadores portuários e multinacionais de energia, precisa assumir um papel ativo e corresponsável. Parcerias estratégicas para o financiamento de simuladores de última geração, a concessão de bolsas de estudo, a doação de equipamentos e a oferta de programas de estágio supervisionado em ambiente real são passos decisivos. O diálogo constante entre a indústria e as instituições de ensino deve alimentar e renovar os currículos com a mesma velocidade em que novas tecnologias são embarcadas nos navios.

Diante do acirramento da competição geopolítica global e das recorrentes interrupções nas cadeias de suprimento globais, manter um contingente nacional de profissionais altamente qualificados vai além da eficiência econômica: trata-se de um imperativo de segurança nacional e soberania. O aço, o combustível e os algoritmos são vitais para o comércio exterior, mas a engrenagem que faz a economia marítima rodar continua sendo composta por mentes capacitadas. Se o Brasil almeja liderar o comércio marítimo na América Latina e ser um ator de relevância global na transição energética, precisa investir massivamente nas pessoas que vão construir, operar e liderar essa transformação no mar.

Alfredo Rodrigues. Engenheiro portuário, pesquisador e consultor portuário.

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