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O Nordeste e a sobra de energia

Pareceria cômico, se não fosse trágico. No momento em que o mundo todo se mobiliza pela chamada transição energética e busca, freneticamente e com muitas limitações, construir matrizes energéticas limpas, aqui, no Brasil, a região Nordeste – a mais pobre e menos desenvolvida do País – enfrenta um grave problema: a sobra de energia limpa!

Refiro-me, especificamente, à elevada produção de energias renováveis, tanto eólica quanto solar, uma deformação com que, à luz da política energética nacional, a região Nordeste passou a conviver.

Como se fosse uma enfermidade indesejável, busca-se, no menor prazo possível, construir linhões de transmissão, para afastar esse vírus da região.  

A situação é tal que, ainda recentemente, forçados pelas circunstâncias, nada menos que 507 projetos de geração tiveram pedido de revogação de suas outorgas – vale dizer, desistência – junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Para se ter uma ideia da gravidade que isto representa, a potência instalada pelo somatório desses projetos representava algo como 22 gigawatts, equivalente a quase uma vez e meia à de Itaipu, uma das maiores hidrelétricas do mundo!

Foram revogadas outorgas de 158 projetos na Bahia, 129 no Piauí, 91 no Rio Grande do Norte, 67 no Ceará, 28 na Paraíba, 22 em Pernambuco, oito em Sergipe e quatro no Maranhão. 

De fato, é impossível conviver com a insegurança jurídica e econômica que colocaram sobre os projetos de geração de energia limpa no Nordeste, representada, entre outros fatores, pelo curtailment, palavra inglesa adotada para determinar o corte na produção de geração das eólicas enquanto se recorre à bem mais cara geração térmica. Afeta-se a equação econômico-financeira dos projetos e a conta, como sempre, fica nas costas do consumidor.

Por causa do tal curtailment, no ano passado, o Brasil desperdiçou cerca de 20% da energia que poderia ter sido gerada pelas renováveis, devido à imposição dos cortes de geração, um volume equivalente à capacidade da usina de Belo Monte! A Bahia e o Rio Grande do Norte, maiores produtores, são os estados mais prejudicados.  

Asfixia-se o Nordeste e deslocam-se os projetos e novos pedidos para o Sul e o Sudeste, à espera da conclusão dos tais linhões de transmissão. Um duplo crime: contra a economia nacional e contra a economia popular. 

A propósito, não deveria ser esta questão uma pauta das organizações ambientalistas que atuam no país?

Não se busca enxergar, nesse dito excesso de produção de energia, a oportunidade que a natureza concedeu – ela que é tão madrasta com o Nordeste, pela recorrência quase contínua das secas que castigam a população do Semiárido. Boa parte migrou, é certo, para o antigo “Sul Maravilha”, mas existe um expressivo contingente populacional que permaneceu, resistindo, na medida em que vem sendo beneficiada por políticas mitigadoras de suas graves consequências econômicas e sociais.

Desdenha-se da crise social nordestina – de que é reflexo a dependência do bolsa-família – para descartar a oportunidade que nos foi dada, não por políticas públicas, mas pela própria natureza.

Medidas mitigadoras, contudo, não resolvem estruturalmente o problema. É preciso que haja políticas claras e objetivas e que sejam capazes de colocar o Nordeste em um outro patamar de desenvolvimento. 

Impõe-se pensar seriamente em como a população nordestina poderia ser beneficiada com o consumo local dessa energia, para gerar trabalho e renda na sofrida região. Este é um assunto que requer planejamento, exige transversalidade e não pode ficar circunscrito apenas à área de energia do governo federal. Este tema é indispensável no âmbito das políticas industrial e regional. 

São várias as alternativas que se oferecem para alavancar o desenvolvimento do Nordeste. Um dos caminhos recentemente mais badalados são os data centers, mas este não é o único. Há também o hidrogênio verde. E os sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) – esses indispensáveis em face do potencial de geração e do atual excesso de oferta de energia na região.

Acresça-se a instalação de indústrias em geral, especialmente eletrointensivas, assim como a oportunidade criada pela descarbonização e, no conjunto, a ampla repercussão que tais iniciativas devam ter sobre a estrutura produtiva regional, suas cadeias de suprimentos e negócios, suas estruturas logísticas, na formação e qualificação de recursos humanos, na inovação e na tecnologia. 

Ainda recentemente, o geólogo britânico Bob Davis, diretor técnico da Brazil Iron, empresa com mina em Piatã, na Chapada Diamantina, chamou a atenção para a oportunidade brasileira em relação à descarbonização industrial, face à disponibilidade em larga escala de energia limpa, ele próprio trabalhando para produzir “ferro verde”, ou seja, produzir ferro e aço com baixa emissão de carbono, utilizando energia limpa para o processo siderúrgico. Com isto, ficam para trás os altos-fornos movidos a carvão.

Ou seja, os de fora chegam e enxergam as oportunidades, mas aqui, há os que insistem em trabalhar contra. Numa política de avestruz, dão as costas até para as vantagens naturais de que o Nordeste dispõe.  

O que não pode é, por falta de decisões adequadas e corretas, o Nordeste perder esta janela de oportun

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