O potencial dos cruzeiros vai além do Porto
Santos já tem relevância no mercado nacional de cruzeiros. O passo seguinte é fazer com que essa posição se traduza em benefícios cada vez mais amplos e duradouros para a cidade.
A nova temporada de cruzeiros se aproxima. A partir do próximo dia 23, Santos volta a receber navios que, depois de meses navegando por diferentes regiões do mundo, chegam ao Atlântico Sul para a temporada de verão.
Esse movimento nos coloca diante de uma questão que vai além da operação portuária: como transformar o enorme fluxo de passageiros dos cruzeiros em mais desenvolvimento econômico, emprego e oportunidades para Santos? Com a expectativa de movimentar cerca de 900 mil pessoas até abril, temos uma oportunidade importante de pensar não apenas na capacidade de receber navios, mas no que a cidade pode construir a partir deles.
Os cruzeiros movimentam uma cadeia econômica que envolve muito mais do que o transporte marítimo. Estudo da Fundação Getulio Vargas, em parceria com a CLIA Brasil, aponta que o setor movimentou R$ 4,76 bilhões na economia brasileira na temporada 2025/2026, com cerca de 72 mil postos de trabalho associados à atividade. Parte desse impacto chega diretamente às cidades por meio dos gastos de passageiros e tripulantes com hospedagem, alimentação, transporte, comércio e serviços.
Para Santos, que ocupa posição central nesse mercado, o desafio é ampliar essa conexão entre a operação portuária e a economia urbana. O passageiro que desembarca pode movimentar negócios, gerar renda e conhecer atrações que o façam retornar em outra oportunidade. Mas esse potencial não se concretiza automaticamente. Depende de infraestrutura, mobilidade, qualificação profissional e de uma cidade preparada para receber bem.
É por isso que a discussão sobre cruzeiros também precisa ser uma discussão sobre emprego. Quando o turismo marítimo se conecta ao comércio, à gastronomia, aos transportes e aos serviços, surgem oportunidades para empresas e trabalhadores de diferentes áreas. Aproveitar esse movimento significa criar condições para que os benefícios econômicos ultrapassem os limites do terminal e alcancem cada vez mais a população.
Essa preparação passa, necessariamente, pela infraestrutura. A terceira pista da Rodovia dos Imigrantes, o projeto do túnel Santos-Guarujá e a evolução do Aeroporto Civil Metropolitano de Guarujá apontam para uma Baixada Santista com melhores condições de mobilidade urbana. São empreendimentos distintos, com objetivos próprios, mas que podem contribuir para ampliar a circulação de pessoas e fortalecer a região como destino turístico e econômico.
A conectividade regional, porém, precisa caminhar junto com a qualidade da infraestrutura portuária. Nesse sentido, a transferência do terminal de cruzeiros para o Valongo representa uma oportunidade de repensar a relação entre o Porto e a cidade.
O projeto prevê uma estrutura ampliada, com capacidade prevista para operar três navios simultaneamente e receber até 6 mil passageiros por embarcação. Mais do que aumentar a capacidade operacional, a mudança pode aproximar os visitantes do Parque Valongo, do Museu Pelé, do Museu do Café, do Centro Histórico, da gastronomia e do comércio local. É uma maneira de tornar a chegada do passageiro também uma oportunidade de conhecer Santos e consumir o que a cidade tem a oferecer.
A construção desse projeto envolve articulação institucional e decisões que ultrapassam a esfera municipal. Nesse processo, é importante reconhecer a participação do deputado federal Paulo Alexandre Barbosa, presidente da Frente Parlamentar de Portos e Aeroportos, na articulação em torno da transferência, assim como o papel do presidente da Autoridade Portuária de Santos, Anderson Pomini, nas discussões sobre o futuro da infraestrutura portuária. A integração entre essas frentes é fundamental para que o projeto avance e responda tanto às necessidades da operação, quanto às possibilidades de desenvolvimento da cidade.
Essa agenda também dialoga com o trabalho do Ministério de Portos e Aeroportos na qualificação da infraestrutura voltada ao turismo marítimo, incluindo a modernização dos terminais de passageiros e a preparação para receber embarcações de diferentes portes e perfis. Afinal, a competitividade desse mercado depende não apenas dos navios e dos roteiros oferecidos, mas também da qualidade da estrutura que recebe quem viaja.
O próximo ciclo dos cruzeiros não será definido apenas pelo número de navios que Santos consegue receber, mas pela capacidade da cidade e da região de transformar esse fluxo de passageiros em consumo, empregos e novas oportunidades. Para isso, precisamos tratar infraestrutura portuária, mobilidade, turismo e desenvolvimento econômico como partes de uma mesma agenda.
A temporada que começa agora é uma oportunidade de avançar nessa direção. Santos já tem relevância no mercado nacional de cruzeiros. O passo seguinte é fazer com que essa posição se traduza em benefícios cada vez mais amplos e duradouros para a cidade.
Porque, para Santos, o melhor resultado de um cruzeiro não é apenas o navio partir cheio. É o passageiro partir levando consigo a vontade de voltar.
Bruno Galoti Orlandi escreve quinzenalmente para o BE News, com seus textos publicados às segundas-feiras.