O risco da eficiência extrema: empresas enxutas demais para resistir
No modelo de gestão escolhido para manter o negócio lucrativo e funcional, o “modelo ouro” está em reconhecer que a eficiência sustentável precisa incorporar o custo da exposição aos riscos.
Já há algum tempo em que a eficiência operacional vem sendo buscada e tratada como, senão a principal, uma das fundamentais virtudes da gestão empresarial. Buscar a redução de custos e de desperdícios, além de otimizar os processos tornaram-se atividades obrigatórias, desconsiderando qualquer possibilidade de manter itens e recursos considerados ociosos em seus processos. O fluxo de giro nos estoques, sempre que possível, vai ficando cada vez mais curto e menos volumoso – assim como em muitas vezes – os tempos para seus pagamentos…
Tudo vai bem até que o inesperado acontece.
Se houver uma ruptura na cadeia de suprimentos, tanto pela perda de um fornecedor estratégico, quanto por uma crise de liquidez, vem à tona a fragilidade que os indicadores tradicionais de produtividade nem sempre conseguem antecipar. Até que ponto a empresa se tornou tão eficiente, que pôde se preparar para não perder sua capacidade de resistir?
Essa contradição encontra um paralelo no chamado efeito tesoura, desenvolvido por Michel Fleuriet e colaboradores, em que basicamente se demonstra que uma empresa pode apresentar crescimento, margens positivas e lucro contábil, mas enfrentar dificuldades financeiras progressivas. E, na verdade, o que ocorre nesta situação é um descompasso entre a necessidade de financiamento para sustentar a operação e os recursos disponíveis para tal, mesmo estando diante de um cenário lucrativo. O descompasso se dá pela entrada de recursos de financiamento em tempos e volume diferentes das necessidades financeiras para manter estoques e conseguir financiar os clientes da organização. A empresa expande as vendas numa medida superior à de que tem uma entrada de recursos que sustentem esse crescimento, que por sua vez, passa a alimentar a própria fragilidade.
Surge, então, uma questão incômoda: até que ponto o crescimento representa fortalecimento econômico e quando começa a produzir vulnerabilidade?
A busca pela eficiência pode agravar essa condição quando elimina reservas operacionais e financeiras necessárias para enfrentar imprevistos. Reduzir estoques, equipes e estruturas de apoio, melhora determinados indicadores, mas pode comprometer a capacidade de reação. A empresa reduz sua resiliência e fica à mercê da sorte.
A eficiência que elimina a capacidade de reação
A ideia de empresa resiliente põe à prova alguns aspectos da exata medida da gestão mais enxuta. Eliminar desperdícios não pode representar redução indiscriminada de reservas estratégicas, alternativas de fornecimento e capacidade operacional, pois, há situações em que as empresas buscam uma forte redução dos custos fixos, melhorando suas margens e indicadores, mesmo permanecendo vulneráveis às menores alterações nos seus respectivos ambientes de negócios.
E, voltando ao início desta nossa conversa, o efeito tesoura representa uma possível manifestação financeira dessa fragilidade: como dissemos acima, a organização continua vendendo e produzindo resultados enquanto sua estrutura de financiamento se torna progressivamente incompatível com as exigências das operações.
Por esse motivo, no modelo de gestão escolhido para manter o negócio lucrativo e funcional, o “modelo ouro” está em reconhecer que a eficiência sustentável precisa incorporar o custo da exposição aos riscos. E, se até agora este papo pareceu falar de finanças e contabilidade, é aqui que entram a governança e o compliance.
Quando a governança confunde desempenho com sustentabilidade
A continuidade empresarial é uma preocupação que o compliance assume em relação à gestão dos riscos a que a organização estará eventualmente exposta, bem como a sugestão das medidas que mitigarão possíveis problemas. Apenas o acompanhamento de indicadores isoladamente, não revelam se a organização está ampliando sua dependência de crédito de curto prazo, concentrando fornecedores ou reduzindo perigosamente suas margens de segurança.
Desta forma, o apetite a riscos não pode permanecer como mera declaração institucional. A organização precisa ter decisões orientadas sobre endividamento, expansão, investimentos e continuidade operacional, uma vez que não depende só de realizar bons resultados imediatos. Mais que isso, ela precisa fazer com que esses bons resultados gerem possibilidade de crescimento e de sustentabilidade tanto no médio quanto no longo prazo.
Se uma empresa aumenta suas vendas num ritmo superior ao da sua capacidade de financiamento, ela está deteriorando seu caixa e, com isso, eliminando toda a margem de segurança para maximizar a produtividade; e talvez com essa decisão, esteja transferindo custos presentes para riscos futuros.
Por tudo isso, o grande desafio está em continuar produzindo, ao invés de apenas passar por um olhar mais míope, de produzir mais com menos no curto prazo, sacrificando o futuro da organização.
Essa perspectiva desafia uma premissa recorrente: nem todo recurso aparentemente ocioso representa desperdício.
Uma reserva de liquidez, um fornecedor alternativo ou uma capacidade produtiva adicional podem parecer pouco atraentes em períodos de estabilidade. Seu valor estratégico, entretanto, aparece quando as condições deixam de ser previsíveis, aumentando a resiliência organizacional. Reconhecer quais são as efetivas reservas necessárias e seus custos e riscos, permite um futuro mais garantido ao negócio pelo prisma da sustentabilidade organizacional.
Esse mesmo raciocínio vale para os aspectos vinculados à governança, que irá além do desempenho alcançado, também buscar criar as bases para sustentação do crescimento da empresa, bem como de sua perpetuidade. Para isso, vale repensar a organização em relação a como adaptar seus processos e procedimentos para se adequar aos novos rumos em que eventualmente seu mercado de atuação passe a operar.
A coluna Papo de Companalmente no BE News. Contato pelo e-mail: compliance@grupobraliance, da economista Selma Culturati Vasquez, é publicada semsilexport.com.br.