Porto e cidade: uma integração que precisa ser de mão dupla
A verdadeira integração porto-cidade, portanto, não pode ser uma via de mão única. Ela exige reciprocidade, planejamento e visão de longo prazo.
Durante décadas, repetiu-se, em Santos (SP) que “o Porto deu as costas para a cidade”. A frase se consolidou no debate público, mas, talvez, já não ajude a compreender o desafio que temos pela frente. A questão mais importante, atualmente, não é saber quem virou as costas para quem, mas como porto e cidade podem planejar juntos um futuro em que o desenvolvimento de um não limite o potencial do outro.
O Porto de Santos é parte indissociável da economia santista. Sua atividade movimenta uma extensa cadeia formada por empresas retroportuárias, transportadores, armazéns logísticos e prestadores de serviços. Essa dinâmica gera empregos, renda e arrecadação que retornam ao próprio município. Mais de 60% do Imposto Sobre Serviços (ISS) arrecadado pelos cofres santistas tem origem nas atividades portuárias e retroportuárias. É uma demonstração objetiva de que a relação entre porto e cidade não é apenas histórica: é econômica e fiscal.
Por isso, a discussão sobre o futuro do território portuário precisa deixar de ser tratada como um conflito entre as duas partes. Também é preciso superar a visão de que são atividades concorrentes, pois ambas integram um mesmo sistema econômico e urbano. Quando uma empresa retroportuária se afasta do cais, por exemplo, o impacto não fica restrito ao setor logístico. A distância maior significa mais deslocamentos, mais pressão sobre a infraestrutura viária, custos maiores e perda de eficiência para toda a cadeia.
É nesse ponto que o planejamento ganha importância estratégica. A expansão imobiliária e a verticalização não podem ser analisadas apenas sob a ótica do aproveitamento imediato do território. Uma cidade portuária precisa considerar também quais espaços serão necessários para sustentar sua principal atividade econômica nas próximas décadas. Proteger áreas estratégicas, corredores logísticos e estruturas de apoio à operação portuária não significa impedir o desenvolvimento urbano. Significa planejá-lo, levando em conta a vocação econômica local.
Essa não é uma discussão exclusiva de Santos. Grandes cidades portuárias compreenderam que competitividade e qualidade urbana precisam caminhar juntas. Roterdã, Barcelona, Hamburgo e Valência buscaram diferentes modelos de convivência entre o porto e o tecido urbano, preservando áreas necessárias à operação e, ao mesmo tempo, criando espaços de integração com a população. A lição não está em reproduzir esses modelos, mas em entender que os planejamentos portuário e urbano devem dialogar.
Santos possui uma oportunidade importante diante de si. O porto continua investindo, ampliando capacidade e modernizando suas operações. Em 2025, o complexo alcançou o recorde de 186,4 milhões de toneladas movimentadas. Esse crescimento, porém, precisa encontrar um município preparado para receber os efeitos positivos e administrar os desafios que vêm com ele.
Pensar, estrategicamente, a relação porto-cidade significa antecipar esses desafios e não esperar que eles se transformem em conflitos. Significa discutir, agora, onde estarão os armazéns, como funcionarão os corredores logísticos, quais áreas precisam ser preservadas e de que maneira a atividade portuária poderá conviver com a expansão urbana. Quanto mais tarde essas decisões forem tomadas, maior será o custo para todos.
Não se trata de escolher entre um e outro — Santos precisa dos dois. A questão é construir um modelo em que o desenvolvimento urbano não comprometa a competitividade portuária, e a expansão do porto também considere a qualidade de vida da população.
A verdadeira integração porto-cidade, portanto, não pode ser uma via de mão única. Ela exige reciprocidade, planejamento e visão de longo prazo. O porto precisa continuar fazendo sua parte, e o município, reconhecendo que preservar as condições para que essa atividade se desenvolva também é uma forma de preservar empregos, arrecadação, investimentos e oportunidades para as próximas gerações.
Talvez seja esse o momento de abandonar a velha narrativa de que porto e cidade estão de costas um para o outro. O desafio santista é maior: fazer com que os dois olhem na mesma direção.
Bayard Umbuzeiro Neto escreve para o BE News quinzenalmente, com seus artigos publicados sempre às quintas-feiras.