Portos: onde a indústria de offshore wind realmente começa
Discutir portos para offshore wind não significa apenas perguntar onde embarcaremos turbinas. Significa decidir onde queremos desenvolver parte da nova indústria marítima brasileira.
Quando pensamos em eólica offshore, é natural olhar primeiro para o mar. Analisamos vento, profundidade, distância da costa, ondas e conexão elétrica. Mas uma parte decisiva da competitividade de um parque pode estar dezenas de quilômetros atrás da linha de praia. Está no porto.
Uma turbina offshore moderna envolve componentes de dimensões e pesos extraordinários. Pás com mais de 100 metros, torres, naceles, fundações, plataformas flutuantes, cabos e equipamentos precisam ser fabricados, transportados, armazenados, montados e finalmente levados ao mar.
Isso transforma o porto em algo muito maior do que um ponto de embarque. Na eólica offshore, o porto passa a fazer parte da própria linha de produção do parque.
Nem todo porto precisa fazer tudo
Quando offshore wind começa a ser discutido em um novo mercado, é comum surgir uma corrida para identificar potenciais “hubs” portuários. Mas talvez essa seja uma simplificação. Um porto pode participar da cadeia de diferentes maneiras.
Alguns podem receber fábricas de componentes ou estruturas. Outros podem funcionar como áreas de armazenamento e preparação para instalação. Portos com infraestrutura adequada podem realizar montagem e integração de grandes componentes. E bases menores podem assumir posteriormente operações de inspeção e manutenção. Essas funções exigem características diferentes.
Uma base de O&M não possui as mesmas necessidades de um porto destinado à integração de turbinas de grande porte. Da mesma forma, fabricar fundações ou plataformas pode exigir áreas e infraestrutura completamente diferentes daquelas necessárias para armazenar componentes importados.
Por isso, em vez de perguntar quais portos brasileiros serão “portos de offshore wind”, deveríamos perguntar: qual função cada porto brasileiro pode desempenhar competitivamente nessa cadeia?
O tamanho muda a lógica
A escala dos componentes torna essa discussão particularmente importante. Em muitas indústrias, quando um equipamento não pode ser produzido perto do destino, ele simplesmente é transportado por rodovia ou ferrovia. Em offshore wind, isso nem sempre é possível.
Dimensões, pesos e restrições de transporte podem fazer com que determinadas estruturas precisem ser fabricadas muito próximas da água. Em alguns casos, a própria localização da infraestrutura portuária passa a influenciar onde uma cadeia industrial consegue se estabelecer.
Capacidade de carga do cais, extensão e resistência das áreas de armazenamento, calado, canais de acesso, disponibilidade de grandes guindastes e conexão com áreas industriais deixam de ser detalhes logísticos. Passam a ser variáveis do projeto.
Na eólica flutuante, essa integração pode ser ainda mais profunda.
Dependendo da tecnologia e da estratégia de construção, plataformas podem ser fabricadas ou montadas próximas ao porto, receber a turbina ainda protegidas das condições offshore e depois ser rebocadas completas até o local de instalação.
Nesse cenário, porto, estaleiro, área industrial e operação marítima tornam-se partes de um mesmo sistema.
O porto precisa entrar cedo no projeto
Existe aqui uma mudança importante de mentalidade. Tradicionalmente, podemos pensar primeiro na tecnologia e depois procurar a infraestrutura necessária para executá-la. Para offshore wind, talvez seja necessário fazer as duas coisas simultaneamente.
Escolher uma solução de fundação, um conceito flutuante ou uma estratégia de instalação sem considerar desde o início onde e como serão fabricados e montados pode criar custos e limitações difíceis de corrigir posteriormente.
O melhor projeto no papel pode não ser o melhor projeto para a infraestrutura disponível. Isso significa que decisões de engenharia precisam considerar portos desde as fases iniciais.
Onde serão fabricados os componentes? Como chegarão ao porto? Quanto espaço será necessário? Qual será a sequência de montagem? Quais equipamentos serão utilizados? Quantas unidades precisarão estar simultaneamente em produção? Qual será a cadência necessária para alimentar a campanha offshore?
Quando passamos de uma demonstração para um parque com dezenas ou centenas de turbinas, essas perguntas deixam de ser apenas operacionais. Tornam-se questões de produtividade industrial.
Planejar antes da demanda
Há também um desafio de tempo. Grandes adaptações portuárias não acontecem rapidamente. Reforçar cais, ampliar áreas, dragar canais, adquirir equipamentos ou desenvolver novos terminais pode exigir anos de planejamento, licenciamento e investimento.
Mas investir antes de existir demanda firme também representa risco. Esse é um dos dilemas clássicos dos mercados emergentes de offshore wind: os projetos precisam de infraestrutura para avançar, enquanto os portos precisam de previsibilidade dos projetos para justificar investimentos.
A solução passa por planejamento coordenado. Governo, desenvolvedores, autoridades portuárias, indústria e operadores marítimos precisam compartilhar cenários de crescimento e identificar quais investimentos são realmente estruturantes.
Isso também evita outro risco: diversos portos realizarem investimentos semelhantes para disputar uma demanda que talvez não justifique toda essa capacidade.
O Brasil possui uma costa extensa e realidades regionais muito diferentes. Provavelmente não teremos um único modelo de porto offshore wind, mas uma rede de infraestruturas com funções complementares.
Uma oportunidade além dos parques
Existe ainda uma dimensão estratégica. Um porto preparado para offshore wind pode atrair ao seu redor fabricantes, empresas de engenharia, operadores logísticos, serviços marítimos, treinamento profissional e atividades de manutenção.
O impacto econômico, portanto, não fica restrito à área portuária. Pode contribuir para formar polos industriais costeiros capazes de atender projetos durante décadas.
E, se o Brasil desenvolver capacidade competitiva suficiente, parte dessa cadeia poderá inclusive atender outros mercados.
Por isso, discutir portos para offshore wind não significa apenas perguntar onde embarcaremos turbinas. Significa decidir onde queremos desenvolver parte da nova indústria marítima brasileira.
O recurso eólico estará no mar. As turbinas também. Mas muito antes de a primeira pá começar a girar offshore, estruturas terão sido fabricadas, componentes movimentados, sistemas integrados e pessoas mobilizadas em terra.
Na eólica offshore, o porto não é apenas o lugar onde termina a logística terrestre. É onde começa a construção offshore.
Rodolfo Gonçalves escreve quinzenalmente no BE News, com seus artigos sendo publicados às sextas-feiras.