Quem agrada a todos se posiciona para quem?
Quanto mais alguém tenta atender às expectativas de todo mundo, menos consegue mostrar o que tem de diferente. A busca constante por aprovação pode até ajudar a manter uma boa imagem por algum tempo, mas não garante reconhecimento.
Reed Hastings desagradou clientes e investidores ao apostar no streaming como futuro da Netflix. Yvon Chouinard foi contra a prática comum do comércio ao incentivar as pessoas a não comprarem uma jaqueta da Patagonia. Mary Barra enfrentou sindicatos, políticos e comunidades ao fechar fábricas da General Motors para investir no futuro da empresa. Em áreas diferentes, os três tomaram decisões que desagradaram muita gente, mas que faziam parte dos planos que tinham para seus negócios. Essas escolhas também ajudaram a construir a imagem pela qual passaram a ser conhecidos no mercado.
O posicionamento profissional depende, dentre outras coisas, do que suas escolhas mostram. Cada uma delas revela o que uma pessoa considera importante e como trabalha. Com o tempo, essas atitudes ajudam a formar a opinião que os outros têm sobre ela. Hastings passou a ser conhecido por enxergar mudanças antes de muitos concorrentes, Chouinard por defender o meio ambiente e Barra pela coragem de fazer grandes mudanças.
Existe, porém, uma certa pressão no ambiente profissional para que sejamos aceitos. Espera-se que líderes saibam negociar e manter bons relacionamentos, e tudo isso tem valor, claro. O problema começa quando a vontade de agradar se torna mais importante do que o motivo de uma decisão. O profissional pode acabar fazendo escolhas que não combinam com aquilo que defende, prejudicando a forma como é visto pelo mercado.
Há muitos profissionais competentes que passam boa parte da carreira tentando não contrariar ninguém. Com o tempo, tornam-se pessoas agradáveis, mas que pouco se destacam. O mercado pode até reconhecer sua competência, mas encontra poucos motivos para escolhê-las em vez de outros profissionais igualmente preparados, porém mais bem posicionados.
Quanto mais alguém tenta atender às expectativas de todo mundo, menos consegue mostrar o que tem de diferente. A busca constante por aprovação pode até ajudar a manter uma boa imagem por algum tempo, mas não garante reconhecimento. Em um ambiente no qual tantas pessoas disputam espaço e oportunidades, ser competente sem conseguir mostrar o próprio valor pode limitar bastante uma carreira.
Posicionar-se exige fazer escolhas. Significa ter uma opinião sobre o próprio trabalho, saber o que se defende e mostrar, pelas atitudes, que tipo de profissional se é. Isso também envolve entender que nem todas as oportunidades combinam com aquilo que se deseja construir. Quem quer ser escolhido por todos corre o risco de não dar motivos claros para ser a primeira escolha de ninguém.
É aí que a coragem de desagradar ganha importância. Não porque o mercado valorize quem gosta de contrariar os outros, mas porque saber defender uma decisão bem pensada mostra segurança e capacidade de avaliar situações. Um profissional que consegue explicar suas escolhas, assumir as consequências e responder pelos resultados mostra qualidades que nem sempre aparecem em uma boa apresentação.
Isso muda o valor que o mercado dá a esse profissional. Quando alguém passa a ser conhecido por ter uma maneira própria de analisar situações, deixa de ser procurado apenas pelo que sabe fazer. Sua opinião também passa a ser valorizada. Para quem ocupa cargos de liderança, isso é ainda mais importante, porque boa parte do trabalho envolve tomar decisões difíceis, muitas vezes sem a concordância de todos.
Mas ter uma opinião firme não significa insistir em tudo a qualquer custo. O próprio Hastings reconheceu erros na forma como separou os serviços da Netflix e desistiu da criação da Qwikster, embora tenha mantido sua aposta no streaming. O caso mostra que é possível continuar acreditando em um caminho e, ao mesmo tempo, reconhecer que algumas decisões precisam mudar.
É preciso, no entanto, tomar cuidado para não achar que desagradar é uma qualidade por si só. Existem decisões que desagradam porque são necessárias e outras porque são ruins. O que faz diferença é saber avaliar a situação, assumir responsabilidades e entregar resultados. A boa reputação de um profissional depende da confiança que consegue conquistar com seu trabalho. E isso pode ter muito mais peso para uma carreira do que simplesmente ser bem-visto em todos os lugares.
Desagradar, portanto, não deve ser um objetivo, mas uma consequência natural de quem entende que se posicionar também significa correr o risco de contrariar expectativas. A vontade de agradar a todos pode até evitar conflitos, mas também pode limitar o crescimento profissional e dificultar a construção de um espaço próprio no mercado. Um posicionamento forte não depende da aprovação de todos, mas da clareza sobre o valor que se entrega e da coragem de sustentar aquilo que se defende.
Clara Laface escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às terças-feiras.