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Danielle Clerman

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Quem vai construir o Brasil?

Talvez o verdadeiro desafio não seja simplesmente formar mais. Seja formar melhor. Formar continuamente. E, principalmente, formar de maneira integrada.

Uma recente declaração do presidente da Vale, Gustavo Pimenta, expôs uma questão sobre a escassez de engenheiros no País: “Estamos com dificuldades de formar novos líderes, formar novos engenheiros, para a Vale, isso é uma dor”. Diante dessa realidade, fica a pergunta: quem vai construir o Brasil?

A pergunta parece simples. Afinal, temos engenheiros, técnicos, universidades, escolas profissionalizantes e empresas formando seus próprios profissionais. Mas a declaração recente do presidente da Vale, Gustavo Pimenta, mostra que talvez a resposta não seja tão simples assim.

Ao falar sobre os projetos e investimentos da empresa, o executivo chamou a formação e a capacitação de profissionais de “calcanhar de Aquiles da indústria”. A dificuldade, segundo ele, está em encontrar e formar engenheiros e novas lideranças para acompanhar os projetos. A Vale vem buscando parcerias com universidades, escolas técnicas e o Sistema S e, em algumas situações, precisou recorrer a profissionais de fora do país.

A notícia poderia ser resumida como “faltam engenheiros no Brasil”. Mas talvez essa seja uma conclusão simplista demais.

O que está faltando não é apenas um determinado tipo de profissional. E também não é apenas uma questão de quantidade. Um país que pretende investir, crescer e transformar sua infraestrutura precisa de uma visão integrada de formação.

Na universidade, quando falamos sobre a falta de profissionais, a primeira reação costuma ser perguntar: quantos engenheiros estamos formando? A pergunta é importante, mas não suficiente.

Um grande projeto de infraestrutura depende de uma ampla rede de conhecimentos, experiências e responsabilidades. Uma ferrovia envolve engenharia, mas também topografia, laboratório, planejamento, manutenção, operação e gestão. Um porto reúne profissionais de logística, tecnologia, automação, meio ambiente, segurança, operação, comércio exterior e muitas outras áreas. Uma rodovia, um aeroporto ou uma planta industrial também dependem de pessoas com diferentes formações e trajetórias, trabalhando de maneira coordenada. A infraestrutura é integrada. Nossa formação, muitas vezes, não é.

Há profissionais formados em universidades, escolas técnicas, cursos de especialização e experiências práticas. As empresas também desenvolvem suas próprias iniciativas de capacitação, enquanto outras instituições contribuem para a formação e o aperfeiçoamento de trabalhadores em diferentes áreas.

Todos esses caminhos são importantes. O desafio aparece quando eles não se encontram. Talvez seja hora de parar de pensar na formação profissional como uma coleção de trajetórias independentes e começar a enxergá-la como uma rede de competências. 

O conhecimento científico e tecnológico, a capacidade de planejamento, o domínio de processos, a experiência prática, a operação, a manutenção, a gestão e a liderança são dimensões que precisam estar articuladas. Não se trata de estabelecer uma escala de importância entre profissões ou trajetórias. Trata-se de reconhecer que nenhuma formação, isoladamente, responde à complexidade dos desafios atuais.

Precisamos valorizar a formação técnica, a experiência prática, a formação universitária, a especialização e a educação continuada como partes de um mesmo ecossistema. Mais do que isso: precisamos criar pontes entre esses caminhos.

Não existe um único caminho para formar um bom profissional. O que existe é a necessidade de oferecer caminhos de qualidade, reconhecer suas especificidades e permitir que eles se conectem.

Precisamos aproximar quem ensina de quem faz. Talvez um dos maiores desafios esteja justamente na conexão. Universidades possuem conhecimento científico e tecnológico. Escolas técnicas e instituições de formação profissional desenvolvem competências aplicadas a diferentes atividades. Empresas conhecem as necessidades reais dos projetos e dos ambientes de trabalho. Entidades profissionais conhecem os desafios, responsabilidades e transformações que atravessam as diferentes áreas. E o setor público tem um papel fundamental na construção de políticas de desenvolvimento.

Precisamos aproximar esses mundos. Criar espaços de diálogo para que conhecimento, experiência e necessidade caminhem juntos.

Porque existe um risco quando esses mundos se afastam: podemos formar pessoas muito bem preparadas academicamente, mas pouco familiarizadas com os problemas reais que encontrarão; ou profissionais com excelente experiência prática, mas a atualização necessária para acompanhar a transformação tecnológica. O futuro exige a combinação dessas dimensões.

Existe ainda uma pergunta que talvez seja a mais importante de todas: como estamos apresentando a Engenharia e a infraestrutura para as novas gerações?

Se queremos atrair mais pessoas para as áreas relacionadas à infraestrutura, precisamos mostrar aos jovens por que essas atividades importam. Precisamos mostrar que trabalhar com infraestrutura é participar da construção do país. É projetar uma ponte. É construir uma estrada. É fazer um porto funcionar melhor. É tornar uma cidade mais eficiente.

É criar soluções para reduzir emissões e enfrentar as mudanças climáticas. É usar tecnologia para resolver problemas concretos. É transformar conhecimento em algo que existe no mundo real. Talvez tenhamos falhado um pouco em contar essa história.

O Brasil tem uma enorme agenda de investimentos pela frente. Mas entre o anúncio de um investimento e a entrega de uma infraestrutura existe uma longa cadeia de pessoas. Por isso, discutir formação profissional não é discutir apenas educação. É discutir infraestrutura.

A fala da Vale deveria ser entendida como um alerta. Não basta perguntar quantos engenheiros o Brasil forma. Precisamos perguntar que profissionais estamos formando, para quais desafios e como estamos conectando as diferentes formações necessárias para realizar grandes projetos.

Talvez o verdadeiro desafio não seja simplesmente formar mais. Seja formar melhor. Formar continuamente. E, principalmente, formar de maneira integrada.

No setor de infraestrutura, nenhum profissional trabalha sozinho. E nenhum país constrói seu futuro sozinho.

Se queremos construir um Brasil mais moderno, competitivo e sustentável, precisamos investir não apenas nas obras que queremos entregar, mas também nas pessoas que terão a responsabilidade de fazê-las acontecer.

Porque, no final, existe uma pergunta que nenhum grande projeto consegue responder sozinho: quem vai construir o Brasil?

Danielle Clerman. Engenheira, professora da Área de Infraestrutura da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e diretora de Operações do Intituto PORTa.

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