Reduzir a jornada exige planejar o trabalho, não apenas reorganizar a escala
A discussão sobre a escala 6×1 não deve se resumir a uma disputa entre direitos trabalhistas e custos empresariais. O país precisa avançar na qualidade de vida de quem trabalha, mas também preservar a capacidade de produzir, transportar, abastecer e competir.
A valorização do trabalhador não deve ser vista como uma concessão, mas como parte de uma gestão responsável. Ter tempo para descansar, conviver com a família e cuidar da própria saúde é fundamental para a qualidade de vida. Pessoas mais saudáveis e respeitadas também têm melhores condições de contribuir para o ambiente profissional. O desafio está em transformar esse princípio em uma mudança sustentável para todos os envolvidos.
A promulgação da emenda constitucional que prevê o fim da escala 6×1 recoloca essa discussão no centro das decisões das empresas brasileiras. A medida representa uma mudança significativa na organização do trabalho e exige que as empresas revisem rotinas, dimensionamento de equipes, custos e modelos operacionais. Mais do que adequar escalas, será necessário repensar como o trabalho é planejado e distribuído.
Em setores nos quais a operação não pode parar, como transporte e logística, essa transformação merece atenção especial. Um terminal retroportuário alfandegado, por exemplo, integra uma cadeia que funciona de maneira contínua, muitas vezes 24 horas por dia. A movimentação de cargas, os compromissos com clientes, os prazos contratuais e as exigências aduaneiras não acompanham, necessariamente, os limites da jornada individual de cada profissional.
Quando uma escala muda, a operação precisa continuar funcionando. Isso pode exigir novas contratações, redistribuição de equipes, revisão de turnos e investimentos em produtividade. Se a redução da jornada elevar o custo da mão de obra sem que haja aumento proporcional da movimentação de cargas ou da receita, a pressão sobre a sustentabilidade financeira será inevitável. Em um setor que depende de eficiência e previsibilidade, esse impacto precisa ser considerado desde o planejamento.
É por isso que mudanças dessa dimensão deveriam ser discutidas amplamente com os diferentes setores da economia, sobretudo aqueles essenciais ao funcionamento do país. A logística não é uma atividade isolada: ela conecta produtores, indústrias, importadores, exportadores e consumidores. Qualquer alteração relevante em uma etapa da cadeia pode produzir efeitos nas demais, seja nos custos, nos prazos ou na capacidade de atendimento.
Isso não significa questionar a importância do descanso ou colocar a rentabilidade acima das pessoas. Significa reconhecer que a proteção ao trabalhador e a sustentabilidade das empresas precisam caminhar juntas. Uma organização financeiramente saudável tem melhores condições de preservar empregos, investir em tecnologia, qualificar suas equipes e oferecer ambientes de trabalho seguros. Da mesma forma, profissionais valorizados e preparados são essenciais para a qualidade e a produtividade das operações.
A transição exigirá diálogo entre empresas, trabalhadores, sindicatos e poder público. A negociação coletiva responsável, o planejamento das escalas e a avaliação das particularidades de cada atividade podem ajudar a construir soluções compatíveis com a nova realidade. Também será necessário identificar oportunidades para eliminar desperdícios, melhorar processos e investir em recursos que aumentem a produtividade sem transferir toda a pressão da mudança para os empregados.
Na área de Recursos Humanos, esse processo reforça a importância de uma atuação cada vez mais estratégica. Não basta calcular quantas pessoas serão necessárias para cobrir os turnos. É preciso compreender como as mudanças afetam a saúde, a segurança, o engajamento e a vida dos profissionais, ao mesmo tempo que se avaliam seus reflexos sobre a operação e os resultados do negócio. Planejamento de pessoal e planejamento operacional precisam estar conectados.
A discussão sobre a escala 6×1 não deve se resumir a uma disputa entre direitos trabalhistas e custos empresariais. O país precisa avançar na qualidade de vida de quem trabalha, mas também preservar a capacidade de produzir, transportar, abastecer e competir. O caminho mais consistente será aquele que combinar responsabilidade social, diálogo e eficiência.
No fim, uma mudança na jornada só será verdadeiramente sustentável quando o trabalhador tiver mais condições de viver bem e as empresas conseguirem manter suas atividades com segurança, qualidade e equilíbrio financeiro. Valorizar as pessoas e garantir a continuidade das operações não são objetivos opostos. São partes do mesmo desafio de construir relações de trabalho melhores e negócios preparados para o futuro.
Andrea Umbuzeiro Spagnuolo escreve para o BE News mensalmente, com seus artigos publicados às quintas-feiras.