Reforma tributária muda a importação e amplia o papel estratégico das tradings
Para as tradings, esse cenário reforça uma mudança de posicionamento. O valor não está somente em executar o desembaraço ou operacionalizar uma importação, mas em ajudar o cliente a estruturar a operação de forma coerente do início ao fim.
A Reforma Tributária não muda apenas a forma de calcular impostos. Para quem importa, ela altera decisões sobre caixa, preço, contratos, crédito e até sobre qual modelo de operação faz mais sentido. É nesse ponto que as tradings ganham um papel ainda mais estratégico: ajudar empresas a transformar regras tributárias em decisões de negócio antes que a mercadoria embarque.
Importação própria, por conta e ordem e por encomenda não são estruturas equivalentes. Cada modalidade envolve responsabilidades, fluxos financeiros e relações contratuais diferentes. Com IBS e CBS, essas diferenças passam a exigir atenção maior ao momento do recolhimento, ao aproveitamento dos créditos e à documentação de cada operação.
Na prática, a pergunta deixa de ser apenas “quanto imposto vou pagar?” e passa a incluir outras: quando o desembolso acontece? Quem aproveita o crédito? Qual é o efeito no capital de giro? O preço continua sustentável depois da nacionalização, do período em estoque e do prazo concedido ao cliente?
Essas respostas não podem ser dadas olhando apenas para a alíquota. Duas operações com tributação semelhante podem ter impactos financeiros muito diferentes se uma exigir mais tempo de estoque ou receber do cliente mais tarde. Isso vale para uma condição comercial aparentemente vantajosa que, mal estruturada, pode pressionar o caixa.
A transição também exige revisão contínua da formação de preços. Em 2027, a CBS substitui PIS e Cofins e as alíquotas do IPI serão reduzidas a zero, observadas as exceções legais. Depois, entre 2029 e 2032, ocorre a redução gradual de ICMS e ISS na transição para o IBS, com conclusão prevista para 2033. Isso significa que a precificação de uma importação não poderá ser revisada uma única vez e esquecida.
Outro ponto central é a qualidade da informação. Sistemas, cadastros, contratos, documentos fiscais e declaração aduaneira precisam conversar entre si. Inconsistências de classificação ou preenchimento podem gerar retrabalho, dificultar conciliações e afetar o aproveitamento de créditos. Por isso, a preparação não é apenas fiscal: envolve também financeiro, comercial, tecnologia, contabilidade e comércio exterior.
Para as tradings, esse cenário reforça uma mudança de posicionamento. O valor não está somente em executar o desembaraço ou operacionalizar uma importação, mas em ajudar o cliente a estruturar a operação de forma coerente do início ao fim: escolher a modalidade adequada, simular impactos, revisar contratos, organizar fluxos financeiros, validar documentos e antecipar riscos.
A Reforma Tributária já está mudando decisões no comércio exterior. As empresas mais preparadas serão aquelas capazes de entender o efeito completo de cada operação e ajustar rapidamente preço, caixa e estrutura. Nesse novo ambiente, a trading deixa de ser apenas uma executora e se consolida como parceira de decisão.
Fabiana Pires. CFO da Macroex Importadora, com mais de 20 anos de experiência em gestão financeira e estruturação de empresas. Graduada em Ciências Contábeis pela UniToledo Wyden, com MBA em Controladoria pela FGV.