Estudo aponta riscos à atividade econômica e alerta para impacto social e logístico com fim das operações no Cais da Gamboa
O projeto Parque do Porto, apresentado pela prefeitura do Rio de Janeiro em maio de 2024, continua gerando discussões. Representantes do setor afirmam que o futuro empreendimento pode travar o desenvolvimento das atividades portuárias na região.
A ideia é construir um parque flutuante usando a área do Cais da Gamboa, que se estende da Praça Mauá até o Canal do Mangue. O empreendimento prevê a utilização de áreas referentes aos armazéns 1 ao 8, o que levaria ao encerramento das operações portuárias no local.
Um estudo realizado pela consultoria MC2R Inteligência Estratégica para a Associação Brasileira dos Usuários dos Portos, de Transportes e da Logística (Logística Brasil) apontou que o projeto pode causar danos não apenas ao cais público, mas a todo o Porto do Rio de Janeiro.
O Mata Maravilha, projeto mais recente de novos usos para o Cais da Gamboa e os armazéns, apresentado pela prefeitura, envolve a construção de dois edifícios, uma marina e um lago artificial de água doce na Baía de Guanabara, além de duas torres de 70 andares e um hotel, em uma área de 223 mil metros quadrados.
Segundo a pesquisa, especialmente pela interferência no canal comercial, a movimentação de mercadorias específicas seria inviabilizada, afetando a cadeia logística do estado e do país, por conta do alcance e diversidade de cargas do complexo portuário.
“A gente não é contra nenhum projeto do Porto Maravilha. A gente é contra invadir o porto, acabar com a atividade portuária, seja no cais de passageiros, seja no cais de carga”, explicou o diretor-presidente da Logística Brasil, André de Seixas.
O estudo da consultoria estima que, por ano, o Porto do Rio de Janeiro movimenta mais de R$ 2,3 bilhões na economia local, além de cerca de R$ 340 milhões em arrecadação de impostos estaduais e municipais nas atividades portuárias exclusivas.
Segundo o Estatístico Aquaviário da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), entre 2020 e 2024, o Cais da Gamboa registrou 913 atracações, divididas entre operações de carga geral, contêineres e graneis líquidos e sólidos.
O espaço entre os armazéns 1 e 8 conta com serviços como operação de graneis sólidos e carga geral. A área ainda tem um projeto para a implantação do novo Terminal de Produtos Siderúrgicos, que já passou por consulta pública e foi aprovado pela Secretaria Nacional de Portos.
Preservação
O estudo ainda destaca que a interferência do projeto não leva em consideração a preservação da paisagem reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial e o fato de o porto ser uma propriedade federal, concluindo a pesquisa com um pedido para que seja feita uma análise do impacto, a fim de determinar as perdas sociais e econômicas, bem como a entrega de alternativas para compensar os efeitos do projeto.
André de Seixas ressaltou a necessidade de estabelecer um meio-termo para construir uma convivência entre as atividades portuárias e os projetos turísticos na região. “Se a gente achar esse meio termo, acho excelente, a questão é que, me parece, que a especulação imobiliária do local não está querendo esse convívio. Estão vindo com a desculpa de que a população tem que chegar na beira do mar”, afirmou o diretor-presidente.
O diretor financeiro do Sindicato dos Operadores Portuários do Estado do Rio de Janeiro (Sindoperj), Mario Meira, também se posicionou contra o projeto. “O porto é muito mais do que vocês imaginam. (…) Isso aqui é federal. Não é a cidade do Rio que está ganhando com o funcionamento do porto, é todo o conjunto que colhe. Minas Gerais hoje exporta pelo Porto do Rio, por exemplo”, afirmou.
Meira ainda rebateu críticas ambientais ao porto: “Durante a pandemia o Rio inteiro parou, mas o porto funcionou todos os dias e aumentou sua produção. A Baía de Guanabara foi a mais limpa de todos os tempos. Esse porto não é poluidor, é agregador.” E completou: “A Gamboa, o Santo Cristo, a Saúde, todos devem muito ao porto do Rio. O porto é um ativo. Vamos cuidar dele. A prefeitura tem uma participação fundamental nisso.”