O crepúsculo da hiperglobalização
A análise do economista Eduardo Giannetti, apresentada em entrevista publicada nesta edição do BE News, funciona como um divisor de águas para a compreensão do caos contemporâneo, ao diagnosticar que a era da lógica fria — pautada exclusivamente pelo custo baixo, pela escala e pela concentração produtiva em um único fornecedor — finalmente ruiu. O fim desse ciclo de hiperglobalização dá lugar a um mundo que prioriza a segurança e a diversificação das cadeias de suprimentos, uma mudança motivada pela constatação de que a dependência extrema de poucos fornecedores, como ocorre com os chips de Taiwan, gera uma fragilidade sistêmica insustentável.
Para o Brasil, esse cenário não representa apenas um desafio diplomático, mas a maior oportunidade histórica de reposicionamento estratégico do século XXI, exigindo a defesa de uma nova industrialização baseada em nossos ativos ambientais para que o País deixe de ser um mero espectador da história.
A importância estratégica dessa transição reside na necessidade de corrigir as distorções de uma economia globalizada que se tornou excessivamente financeira, com o valor dos ativos financeiros superando em até doze vezes o PIB real e concentrando-se em poucas gigantes de tecnologia e inteligência artificial. Giannetti conecta com precisão essa dinâmica econômica à política ao explicar que a transferência massiva de empregos industriais para a Ásia urbanizou milhões no Oriente, mas devastou a classe trabalhadora ocidental, minando seu poder de barganha e gerando o ressentimento que hoje alimenta populismos nacionalistas e a ascensão da extrema direita global. É nesse vácuo de estabilidade que o Brasil encontra seu maior trunfo, pois detém a dotação de recursos naturais, minerais críticos e terras raras que o mundo buscará dramaticamente para garantir sua própria segurança.
O diferencial para o futuro brasileiro será a capacidade de industrializar esses recursos em vez de permanecer como um exportador de bens primários in natura. O fato de haver potências disputando o acesso ao que o Brasil possui permite ao País negociar termos melhores e atrair investimentos que agreguem valor à biodiversidade nacional. Ao mesmo tempo, o economista alerta para a crise civilizatória das mudanças climáticas, que define como a maior ameaça à espécie humana e que não pode ser contornada pelo negacionismo. A realidade dos eventos climáticos extremos torna imperativa uma ação preventiva imediata, sob o risco de a humanidade enfrentar uma via dolorosa com custos sociais e econômicos muito mais elevados do que os necessários para uma transição planejada.
O Brasil de 2026 tem a oportunidade de deixar de ser o país do futuro para se tornar o provedor de soluções para o presente, utilizando sua matriz de energia limpa para atrair fábricas e laboratórios. O fim da hiperglobalização oferece a chance de reconstruir a dignidade social e o poder de negociação econômica, desde que o País saiba aproveitar suas vantagens comparativas de forma inteligente. A nova ordem mundial não ignorará a questão climática nem as demandas por recursos, e o papel do Brasil será definido pela sua habilidade em transformar sua riqueza natural em autonomia tecnológica e progresso industrial sustentável.