quarta-feira, 29 de abril de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Clara Laface

Clique para ver mais

Articulista

Por que líderes precisarão repensar sua presença profissional

Nos últimos anos, muitas empresas passaram a contratar profissionais em diferentes países. A tecnologia tornou possível montar equipes espalhadas por várias regiões do mundo. Com isso, novas rotinas de trabalho começaram a surgir.

O debate sobre o futuro do trabalho costuma girar em torno de tecnologia, automação e produtividade. Esses temas dominam boa parte das discussões sobre transformação nas empresas. Mas outra mudança vem acontecendo ao mesmo tempo.

A forma como profissionais se tornam visíveis dentro das organizações também está mudando. Quando as estruturas de trabalho mudam, a forma de demonstrar contribuição muda junto. Isso afeta equipes, lideranças e trajetórias profissionais. O movimento aparece com mais força em empresas que trabalham com equipes distribuídas e em organizações que reduzem níveis hierárquicos e adotam novas formas de gestão.

Nos últimos anos, muitas empresas passaram a contratar profissionais em diferentes países. A tecnologia tornou possível montar equipes espalhadas por várias regiões do mundo. Com isso, novas rotinas de trabalho começaram a surgir. A gestão de pessoas passou a lidar com culturas diferentes e formas de colaboração que antes não faziam parte do cotidiano das empresas. O impacto aparece na gestão, na carreira e na comunicação profissional.

Um estudo divulgado pela plataforma global de recursos humanos Deel ajuda a entender esse cenário. A análise das tendências foi apresentada por Michelle Cascardo, responsável pela empresa na América Latina. Estas são as nove tendências apontadas pela Deel:

Grande achatamento (Great Flattening): empresas passam a reduzir níveis intermediários de gestão. A ideia é diminuir custos administrativos e tornar o fluxo de informação mais rápido. Estruturas mais planas aproximam equipes da liderança e reduzem camadas de supervisão.

Salário emocional: benefícios não financeiros passam a ter mais peso na relação entre empresas e profissionais. Flexibilidade de horário, possibilidade de trabalho remoto e programas ligados ao bem-estar passam a fazer parte do pacote oferecido pelas empresas.

Job hugging: profissionais passam a evitar trocas frequentes de emprego. Em vez de buscar novas posições o tempo todo, muitas pessoas priorizam estabilidade, principalmente em períodos de incerteza econômica.

Keeper Test: o modelo ficou conhecido em empresas como a Netflix. Gestores analisam com frequência se fariam esforço para manter determinado profissional na equipe. Quando a resposta é negativa, a permanência da pessoa passa a ser discutida.

Culture rot: o termo descreve desgaste na cultura organizacional. Em empresas com equipes distribuídas, manter valores e comportamentos comuns se torna mais difícil, já que parte das interações acontece de forma digital.

Microshifting: a jornada de trabalho deixa de seguir um horário contínuo. O dia passa a ser dividido em blocos de atividade, alternando momentos de trabalho com pausas ou compromissos pessoais.

Deschefiação consciente (Conscious Unbossing): parte da geração mais jovem evita assumir cargos formais de chefia. Muitos profissionais preferem atuar como especialistas ou liderar projetos sem ter responsabilidade direta sobre equipes.

Sprints de resiliência: equipes passam a realizar encontros curtos para compartilhar experiências de trabalho. Nessas conversas, integrantes discutem dificuldades, aprendizados e resultados de projetos recentes.

Inveja de LinkedIn: o termo descreve o desconforto provocado pela comparação constante entre trajetórias nas redes profissionais, especialmente no LinkedIn.

Essas mudanças alteram a forma como lideranças se posicionam dentro das organizações. Em estruturas mais enxutas e equipes distribuídas, a distância entre quem conduz a empresa e quem executa o trabalho tende a diminuir. Isso muda a dinâmica de comunicação e a forma como a presença profissional da liderança é percebida.

A comunicação tende a se tornar mais vertical. Com menos camadas de gestão, mensagens, orientações e prioridades passam a circular de maneira mais direta entre líderes e equipes. O que antes era intermediado por diferentes níveis hierárquicos passa a acontecer de forma mais imediata.

Esse movimento também facilita o mapeamento de talentos dentro das organizações. Com maior circulação de projetos e mais contato entre áreas, fica mais fácil identificar quem contribui, quem mobiliza equipes e quem ajuda a destravar processos no dia a dia. A visibilidade do trabalho deixa de depender apenas da posição formal ocupada.

Ao mesmo tempo, essa proximidade cria mais condições para perceber ruídos que afetam o funcionamento das equipes. Tensões internas ou desalinhamentos de prioridade passam a aparecer com mais clareza para quem conduz a organização. Nesse contexto, ganha peso a forma como cada líder se comunica e constrói relações dentro da organização.

Talvez por isso a própria ideia de poder comece a assumir outro significado dentro das empresas. Em estruturas mais diretas e conectadas, poder deixa de estar apenas ligado ao cargo ocupado e passa a estar relacionado à capacidade de mobilizar pessoas, orientar o trabalho coletivo e dar direção ao que acontece no dia a dia.

Clara Laface escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às terças-feiras.

Compartilhe:
TAGS

Leia também