Portugal, hub brasileiro na era pós-acordo
A visita relâmpago do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Lisboa nessa terça-feira, dia 21, consolida um movimento diplomático que vai muito além da cordialidade histórica entre nações irmãs. Com a entrada em vigor do Acordo Mercosul-União Europeia agendada para 1º de maio, a reafirmação de Portugal como a principal porta de entrada para os interesses empresariais brasileiros na Europa é um lance de realismo econômico. O sucesso desta parceria, simbolizado pelo parque industrial da Embraer em Évora, serve de modelo para uma nova fase de internacionalização da indústria nacional, que agora busca no território luso uma base logística e produtiva dentro do mercado comum europeu.
A importância estratégica deste alinhamento reflete-se na balança comercial, que em 2025 atingiu US$ 4,5 bilhões. O superávit brasileiro de US$ 2 bilhões demonstra que Portugal não é apenas um destino de passagem, mas um parceiro que absorve valor agregado em áreas como siderurgia, máquinas e indústria aeronáutica. Por outro lado, a forte presença portuguesa no setor elétrico e de infraestrutura no Brasil, somada ao fornecimento de energia, cria uma via de mão dupla que fortalece a resiliência das duas economias frente às instabilidades globais.
A questão humana, no entanto, é o que dá a temperatura social a este acordo. A marca de 500 mil brasileiros vivendo em Portugal — cinco vezes o número de lusitanos no Brasil — impõe desafios de integração que não podem ser ignorados. Embora o primeiro-ministro Luís Montenegro classifique incidentes recentes como “pontuais”, a dignidade e a segurança dessa vasta comunidade são moedas de troca fundamentais na diplomacia atual. A integração econômica só é “impecável”, como citado pelo governo português, se acompanhada de uma segurança jurídica e social que proteja o trabalhador brasileiro no exterior.
A passagem de Lula por potências como Espanha e Alemanha, antes de Lisboa, posiciona o Brasil em um périplo europeu focado em democracia e reindustrialização. Ao escolher Portugal como a última escala e “porta de acesso”, o governo brasileiro aposta na afinidade cultural e política como facilitador de negócios. Em um mundo de cadeias de suprimento fragmentadas, ter um aliado estratégico no Palácio de Belém e no Palácio São Bento é o que garantirá que o Acordo Mercosul-UE não seja apenas um documento assinado, mas uma avenida de oportunidades para o crescimento sustentável de ambos os lados do Atlântico.
O desafio agora é transformar o simbolismo de Évora em uma prática sistêmica. A infraestrutura de 2026 exige que empresas brasileiras ocupem o espaço europeu com inteligência e inovação. Se Portugal for, de fato, essa porta aberta, o Brasil terá em Lisboa não apenas um primo distante, mas o sócio majoritário de sua expansão no Velho Continente.