quinta-feira, 30 de abril de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Roberta Lopes da Cruz Antonio

Clique para ver mais

Articulista

Resoluções para 2026: investir em segurança cibernética

Para gestores do setor portuário e logístico, a mensagem é clara: segurança cibernética não deve ser vista como custo, mas como investimento estratégico, comparável à manutenção de ativos físicos ou à contratação de seguros. Ela protege operações, contratos, dados, reputação e, sobretudo, a continuidade do negócio

O início de um novo ano costuma ser o momento em que gestores e conselhos revisitam prioridades, redefinem metas e estabelecem resoluções estratégicas para os meses seguintes. No setor de exportação, logística e infraestrutura portuária, essa lista costuma incluir eficiência operacional, redução de custos, ampliação de capacidade e conformidade regulatória. Em 2026, porém, uma resolução deveria figurar no topo dessa agenda: investir seriamente em segurança cibernética.

Não se trata de alarmismo, mas de realidade de negócios. O Global Cybersecurity Outlook 2025, do World Economic Forum, reforça um cenário já conhecido por quem atua em cadeias logísticas globais: ataques cibernéticos estão mais frequentes, mais sofisticados e com impactos cada vez mais transversais. Infraestruturas críticas, cadeias de suprimento e sistemas interconectados tornaram-se alvos preferenciais — exatamente o ambiente em que operam portos, terminais, operadores logísticos e empresas de comércio exterior.

Os riscos decorrentes da falta de investimento em cibersegurança vão muito além da indisponibilidade temporária de sistemas. Há riscos intangíveis, muitas vezes subestimados, que afetam diretamente o negócio: danos reputacionais, perda de confiança de parceiros internacionais, ruptura contratual, atrasos em embarques, impactos em seguros, além de potenciais sanções regulatórias. Em um setor altamente dependente de previsibilidade, confiança e integração digital, um incidente cibernético pode significar a quebra de elos estratégicos da cadeia.

Não faltam exemplos recentes. Portos e terminais ao redor do mundo já sofreram ataques que paralisaram operações por dias, afetaram sistemas de agendamento, acesso a cargas e comunicação com autoridades aduaneiras. Em um ambiente cada vez mais orientado por dados — manifestos eletrônicos, sistemas de rastreabilidade, plataformas de gestão portuária —, a indisponibilidade ou o vazamento de informações sensíveis gera impactos que extrapolam o prejuízo financeiro imediato.

O elo mais frágil dessa cadeia é, reconhecidamente, o fator humano. A falta de treinamento e da chamada “higiene cibernética” – práticas essenciais à saúde digital de uma empresa que devem ser absorvidas como parte da cultura do negócio – aumentam exponencialmente o risco. De nada adianta vultosos investimentos em tecnologia se a equipe não foi conscientizada sobre os riscos existentes e como evitá-los. E, por isso, é essencial criar uma mentalidade de segurança na empresa. Times mudam, mas a cultura de segurança deve estar enraizada como um dos pilares que contribuem para a eficiência das operações. Por se tratar – como já mencionado – de um risco transversal, podendo envolver diversos setores interligados, sua mitigação demandará uma atuação conjunta, multidisciplinar, entre as várias áreas, não apenas no âmbito da empresa, mas também entre organizações que compartilham dados e informações digitais. 

É importante, todavia, reconhecer um ponto central: não existe risco zero em segurança cibernética. Nenhuma organização está totalmente imune. O que diferencia empresas resilientes daquelas vulneráveis é a capacidade de mitigar riscos, responder a incidentes e demonstrar diligência. E aqui entra um aspecto jurídico frequentemente negligenciado: o investimento em segurança cibernética é, hoje, também uma medida de governança, compliance e boa prática empresarial.

Exemplo disso, no Brasil, é o direito à proteção de dados pessoais que possui status de direito fundamental, expressamente reconhecido pela Constituição Federal. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) reforça esse dever ao exigir a adoção de medidas técnicas e administrativas aptas a proteger os dados contra acessos não autorizados e incidentes de segurança. Em casos de vazamento ou incidente, a avaliação de responsabilidade não se limita ao resultado, mas passa pela análise das medidas preventivas adotadas. Investir em segurança, portanto, não elimina o risco, mas pode ser decisivo na avaliação de conformidade, na redução de penalidades e na preservação da credibilidade institucional.

Para gestores do setor portuário e logístico, a mensagem é clara: segurança cibernética não deve ser vista como custo, mas como investimento estratégico, comparável à manutenção de ativos físicos ou à contratação de seguros. Ela protege operações, contratos, dados, reputação e, sobretudo, a continuidade do negócio.

Talvez a melhor resolução para 2026 não seja prometer que nenhum incidente ocorrerá — isso seria utópico. A resolução mais madura é garantir que, se e quando ocorrer, a organização esteja preparada para responder, mitigar danos e demonstrar que fez o que se espera de uma empresa que atua em um setor crítico e altamente regulado. Em tempos de cadeias globais digitais, essa não é apenas uma escolha técnica, não se trata de opção. É uma estratégia.

Compartilhe:
TAGS

Leia também