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Adilson Luiz Gonçalves

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Vale investir no etanol!

O uso do etanol é uma solução que merece ser cada vez melhor estudada e difundida. Assim como a indústria aeronáutica brasileira, o agronegócio é uma das “ilhas de excelência” do Brasil, constituindo um efetivo componente da estratégia de soberania tecnológica do Brasil.

A discussão sobre descarbonização no transporte marítimo não é de hoje, e muitas alternativas vêm sendo propostas, algumas já em franco desenvolvimento.

Encomendas de navios “flex” com ênfase em metanol ou GNL, ambos chamados “combustíveis de transição”, estão na carteira dos principais estaleiros mundiais. Já o uso de hidrogênio “verde” é uma proposta que guarda certa complexidade e contradição, que também se aplica ao GNL, pois ambos demandam tanques maiores e são armazenados sob pressão.

Alguns chamam unidades de regaseificação de “navios-bomba”. O que eles dirão se, de repente, todas as embarcações passarem a ser abastecidas com hidrogênio “verde” ou GNL?

Num evento que tratou desse tema, uma empresa atuante no Brasil informou que estava desenvolvendo um motor “flex” que permitiria a utilização de etanol em embarcações de grande porte, pois seu uso já existe nas de menor dimensão.

Eu escrevi sobre isso no artigo “Êta nóis”, de 2025. O título era uma brincadeira com a interjeição popular “Eita nóis!”, que exprime surpresa. De fato, era uma boa, embora mais do que esperada surpresa. Afinal, essa tendência me parecia inexorável, apesar do risco de impedâncias internas e externas.

A produção de etanol é uma tecnologia amplamente dominada e aprimorada em nosso país.

Embora também seja considerado um combustível de transição, ele é bem menos poluente que outros em voga, e o Brasil o produz em larga escala, de forma sustentada.

Antes presente como produto utilizado para assepsia, iluminação e cocção, além de item indispensável em caipirinhas, o álcool derivado da cana-de-açúcar, introduzido na indústria automobilística, consolidou-se como tecnologia nacional de ponta, inovadora por excelência!

Num tempo em que os carros elétricos estão na moda, com o discurso ambiental do “durante”, ignorando o “antes” (custo para a produção das baterias) e o “depois” (o que fazer com elas), confesso que prefiro carros movidos a etanol.

Gostaria que alguém apresentasse o balanço entre carros elétricos e movidos a etanol, considerando todo o processo, da fabricação de seus componentes de propulsão ao descarte, à vista da vida útil.

Voltando às embarcações, duas características foram apontadas como favoráveis ao uso do etanol: não haveria necessidade de aumento dos tanques de combustível e, em caso de vazamentos, ele se diluiria e evaporaria, reduzindo o risco de poluição comum nos vazamentos de bunker.

Na época, e não faz muito tempo, a utilização do etanol em motores multiflex de grandes embarcações ainda parecia uma possibilidade.

Alguns diziam que seria difícil emplacar isso em nível mundial. Porém, se considerarmos motores multiflex, os armadores poderiam optar pelo tipo de combustível disponível em cada porto, em nível concorrencial, ou seja, possibilitando redução de custo de operação e, consequentemente, do frete.

No caso do Brasil, mesmo que não fosse uma opção ideal para navegação de longo curso, seria interessante para a navegação interior e, sobretudo, para a cabotagem.

Aí, a Vale anuncia acordo com a empresa chinesa Shandong Shipping Corporation para a fabricação de navios-graneleiros classe Guaibamax (340 m de comprimento e capacidade para transportar 325 mil toneladas de minério de ferro). Embora essa classe seja definida como utilizando tecnologia duel fuel, em verdade ela pode ser caracterizada como multiflex, por possibilitar a utilização de etanol, metanol e bunker, além de contar com velas rotativas, o que permite reduzir até 90% das emissões de poluentes (dióxido e monóxido de carbono, óxido nitroso, óxido de enxofre, metano, compostos orgânicos voláteis e materiais particulados) em relação aos combustíveis fósseis, óleos bunker e diesel, majoritariamente utilizados na navegação mundial.

“Eita nóis”, que surpreendente notícia!

O minério de ferro é uma commodity de baixo valor agregado. A Vale tornou sua exportação competitiva pela utilização de embarcações de grande porte; ou seja, a entrada do etanol nesse escopo deve ter sido considerada parte indissolúvel (embora solúvel) dessa estratégia.

Considerando a agressividade comercial e o planejamento estratégico do governo chinês em nível global, esse sistema de propulsão pode ganhar escala mundial, incorporado a novas embarcações de longo curso e, quem sabe, à adaptação das existentes, trazendo um resultado mais rápido e eficiente ao esforço de redução de emissão de GEE.

O ideal seria que estaleiros e empresas nacionais produzissem essas embarcações e, principalmente, esses sistemas de propulsão, mas isso envolve a superação de problemas um pouco mais complexos.

Afora isso, o etanol é inegavelmente um dos principais produtos do agronegócio brasileiro.

A difusão de seu uso tende a incrementar sua produção em outras partes do mundo.

Assim como no Brasil, a tendência é que haja reação negativa de grupos que são contra a expansão do agronegócio, sobretudo em países menos desenvolvidos, onde questões ideológicas e interesses externos prejudicam o desenvolvimento sustentado nacional.

Embora as intenções sejam, em tese, compreensíveis e, até, louváveis, a falta de noção de consequências mais amplas faz com que esse ativismo prejudique até seu propósito basilar.

O desenvolvimento tecnológico aliado ao bom senso é a principal estratégia para assegurar a longevidade da humanidade.

Partindo dessa premissa, é preciso que haja menos radicalismo ideológico e mais racionalismo pragmático e consensual, para assegurar que a sustentabilidade socioeconômica dos países seja efetiva, e não objeto de constantes conflitos, baseados em “achismos” em vez de dados concretos e bem equilibrados.

O uso do etanol é uma solução que merece ser cada vez melhor estudada e difundida.

Assim como a indústria aeronáutica brasileira, o agronegócio é uma das “ilhas de excelência” do Brasil, constituindo um efetivo componente da estratégia de soberania tecnológica do Brasil.

Só que as grandes nações não o são por contarem apenas com esse tipo de “ilha”.

Considerando as dimensões territoriais do Brasil e a capacidade do povo brasileiro, quando a inteligência é estimulada, em vez de discursos ideológicos alienantes, preconceituosos e desagregadores, nosso país tem tudo para ser um “continente de excelência”!

Nesse sentido: vale investir no etanol!

Adilson Luiz Gonçalves escreve semanalmente para o Jornal BE News, com seus artigos publicados tradicionalmente na edição de sábado e domingo e, eventualmente, na de quarta-feira.

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