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Patrícia Lia Brentano

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We are the champions, my friend

Um novo terminal de contêineres não representa apenas expansão de capacidade. Representa redução de custos logísticos, aumento de eficiência, maior integração às cadeias globais, geração de empregos e desenvolvimento econômico.

Esta semana assisti ao filme Bohemian Rhapsody, que retrata a trajetória da banda inglesa Queen até sua icônica apresentação no estádio de Wembley, em Londres, durante o Live Aid — um concerto histórico em prol das crianças da África.

O filme emociona. A interpretação de Freddie Mercury por Rami Malek — que lhe rendeu o Oscar — é precisa, intensa e absolutamente convincente. As músicas, por sua vez, dispensam adjetivos: atravessam gerações com a mesma força. Há algo de singular na capacidade do Queen de transformar performance em conexão — e conexão em movimento coletivo.

O encerramento com We Are the Champions não funciona apenas como um desfecho narrativo. É uma afirmação. Uma síntese de superação, talento e realização.

Foi nesse momento que, de forma quase inevitável diante da minha paixão pela área portuária, pensei no Brasil. Mais especificamente, no terminal Santos 10.

A licitação do novo terminal de contêineres no Porto de Santos (SP) se arrasta há quase uma década. Em um setor no qual tempo é variável crítica — diretamente associado a eficiência, custo e competitividade — dez anos deixam de ser um atraso para se tornarem um passivo estrutural.

A cada postergação, o país perde. Perde eficiência logística, perde inserção competitiva no comércio internacional, perde capacidade de atrair investimentos, perde empregos e arrecadação. Mas perde, sobretudo, o tempo certo das decisões — aquele que separa países que lideram daqueles que apenas reagem.

Enquanto outras economias avançam com clareza estratégica e previsibilidade regulatória, o Brasil segue debatendo etapas que, em muitos casos, já deveriam estar superadas. O problema, portanto, não é falta de potencial.

Ao contrário.

O país reúne condições raras: localização estratégica, escala de mercado, vocação exportadora e operadores qualificados. Há base, há demanda e há capacidade. O que falta, recorrentemente, é execução.

E execução, como demonstra a própria trajetória do Queen, não é um subproduto do talento. É resultado de decisão, coordenação e timing.

Há, no entanto, uma camada adicional nessa reflexão que merece atenção.

O Live Aid, mais do que um espetáculo, foi um exercício concreto de mobilização em torno de um bem comum. Em um ambiente naturalmente competitivo — marcado por interesses, egos e disputas por protagonismo — prevaleceu, ainda que por algumas horas, um objetivo coletivo maior: enfrentar a fome e dar visibilidade a uma crise humanitária urgente das crianças da África.

Esse ponto é central.

Projetos estruturantes como o Santos 10 também se inserem em ambientes competitivos. Empresas disputam, investidores avaliam riscos, o poder público regula. Trata-se de uma dinâmica legítima e necessária.

O desafio surge quando a lógica da competição se sobrepõe à lógica do interesse coletivo.

Quando o processo passa a ser mais relevante do que o resultado.
Quando a multiplicidade de interesses não se organiza, mas se fragmenta.
Quando a complexidade institucional se transforma em imobilismo.

Infraestrutura não é um fim em si mesma. É um instrumento de desenvolvimento.

Um novo terminal de contêineres não representa apenas expansão de capacidade. Representa redução de custos logísticos, aumento de eficiência, maior integração às cadeias globais, geração de empregos e desenvolvimento econômico.

Em outras palavras, representa ganho coletivo.

É nesse contexto que a ideia de uma relação ganha-ganha precisa deixar o discurso e orientar, de fato, a tomada de decisão. Porque, ao final, o sucesso de um projeto dessa natureza não pode ser medido apenas pela vitória de um agente econômico, mas pelo impacto gerado para o país.

O maior risco, hoje, talvez não seja apenas o atraso do Santos 10, mas a sua normalização.

Projetos estruturantes não podem ser absorvidos pela inércia como se ela fosse parte natural do processo decisório. Não são. São, ao contrário, oportunidades críticas — que, quando perdidas, cobram seu preço em competitividade e crescimento.

O Brasil precisa decidir se continuará ensaiando ou se, finalmente, fará sua apresentação.

Porque, no ritmo atual, o risco não é apenas chegar atrasado ao palco — é não chegar.

E sem palco, não há campeão.

É justamente nesse ponto que We Are the Champions ganha um novo significado.

Embora toda licitação pressuponha competição e a existência de um único vencedor formal, o verdadeiro êxito de um projeto como o Santos 10 não será individual. Ao final de um processo que inevitavelmente envolve disputas, ajustes e superação de entraves — regulatórios, institucionais e privados — o resultado que importa é coletivo.

Um terminal moderno, eficiente e alinhado às demandas do comércio contemporâneo não será a vitória de um operador.

Será a vitória de um país que decidiu avançar.

E, quando esse momento chegar, o coro não será de um só.

Será, de fato, o nosso We Are the Champions — de todos nós.

Patrícia Lia Brentano escreve quinzenalmente para o BE News

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